Aquilo me deu um nó na garganta, fazendo meu coração errar a batida. Por mais que eu tentasse pôr na cabeça que meu pai era um herói, cada vez mais me convencia de que estava longe de ser.
- Eu... Fui atrás... Tentei encontrá-lo... Mas quando se entrega para adoção, os dados são sigilosos, não há como saber. – Justificou.
- Pouco me importo com isto, Ernest. Mesmo que você fosse atrás de mim, meus pais jamais o deixariam me levar. – Jai disse com firmeza.
- Eu não concordei... Juro que desde o início fiquei furioso com a decisão de Rosana... Mas não consegui convencê-la. Quando voltei a vê-la ela já tinha se livrado do bebê! – seus olhos se encheram de lágrimas – Eu sinto muito, Jai!
- Não sinta! – Jai sorriu – Não tê-los em minha vida foi a melhor coisa que me aconteceu. Mas não posso dizer o mesmo sobre minhas irmãs, que não tem culpa de nada.
- Como é fácil culpar quem está morto! – eu ri, com desdém, sem conseguir olhar para o meu pai – Aposto que Rosana também teria sua versão, a qual não pode nos contar, porque está morta!
- Olívia...
- Pai, por que ela não abortou quando estava grávida de mim? – perguntei, interessada em saber a verdade – Por que a decisão de se livrar de um filho e não de outro? Por que a abandonou quando nasci? Porque nunca o vi com ela... Se o visse, tenho certeza de que me lembraria, já que o senhor não é nada parecido com o tipo de homens que minha mãe andava.
- Coração, eu sou inocente!
Eu ri, sentindo o coração estraçalhado. Não, ele não era inocente. E aquilo me alertou para algo que ia muito além... O acidente que levou à morte de Mônica há dez anos atrás.
Ele tentou me abraçar, enquanto chorava. Me afastei:
- Pai, agora não... Não quero que me abrace, por favor! – Pedi.
Ele foi na direção de Jai:
- Filho! Meu filho! – sorriu em meio às lágrimas – Posso... Ao menos... Lhe dar um abraço?
Jai riu. Aos poucos o riso foi ficando leve e em pouco tempo ele estava gargalhando. O observamos e eu sabia que Rita estava confusa, mas eu conhecia um pouco do meu irmão, a ponto de saber o quanto aquilo o magoava e que ele usava do sarcasmo para tentar fazer doer menos. Eu, mais do que ninguém, conhecia aquela dor... A dor do abandono, da rejeição.
- Não me toque, Ernest Abertton – Jai deixou claro – E procure logo um lugar para morar. Agora que sabe da verdade, o quero longe de mim. Não tenho interesse algum em ser seu amigo e nunca mais na vida me chame de filho, porque você não é o meu pai. Abrigarei minhas irmãs e até mesmo a sua esposa, mas não há lugar para você nesta casa. Tem três dias para arranjar um lugar para morar.
- Mas Jai... Isto não é justo. Três dias é pouco!
- E dez anos, pai? – Rita questionou-o – Dez anos fingindo que não se tem uma filha é muito ou pouco?
- Caralho, de que lado você está, Rita?
- Do lado humano desta história... Do lado da verdade! Estou cansada das suas mentiras.

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