A casa era afastada demais do mundo.
Madeira escura, janelas altas e grandes, uma fortaleza meio gótica perdida na mata, luz fraca. O tipo de lugar que parecia existir apenas para guardar segredos que não podiam circular à luz do dia. Anton estava parado diante do espelho do banheiro, o corpo inclinado para frente, uma das mãos apoiada na pia enquanto a outra passava um pano úmido pela boca.
Ainda havia sangue seco no canto dos lábios, ele cuspiu na pia e passou o pano com mais força, os olhos fixos no próprio reflexo. O rosto bonito estava marcado pelo soco que levara de Dante, um roxo escuro se espalhava pela lateral do maxilar, e o canto da boca estava inchado.
Anton sorriu.
Um sorriso lento.
Satisfeito.
— Valeu a pena — murmurou para si mesmo.
— Pelo jeito, sim.
A voz veio de trás, tranquila, curiosa.
Anton não se virou de imediato, apenas terminou de limpar o sangue e se endireitou devagar, encarando o espelho enquanto o outro homem surgia atrás dele.
Connan era alto, forte, cerca de trinta e cinco anos, cabelos loiros presos de forma displicente, barba por fazer. O tipo de homem que chamava atenção sem esforço, com uma presença sólida, confiante. Estava encostado na porta do banheiro, os braços cruzados, analisando o estado do amigo.
— Então? — perguntou. — Como foi?
Anton virou-se, apoiando o quadril na pia.
— Ótimo — respondeu, rindo baixo. — Melhor do que eu esperava.
Connan arqueou uma sobrancelha.
— Ótimo? — repetiu. — Você voltou com a cara toda fodida.
Os dois riram.
— Isso foi meu irmão — Anton disse, tocando o próprio maxilar. — Ele anda meio… possessivo.
— Dante? — Connan cruzou o banheiro e parou diante dele. — Então foi isso que aconteceu?
— Foi — Anton confirmou. — Dei de cara com ele.
— Imagino que não tenha sido um reencontro caloroso.
Anton soltou uma gargalhada curta.
— Ele quase me matou no meio da boate.
Connan balançou a cabeça, rindo.
— Sempre intenso.
— Sempre — Anton concordou. — Mas a melhor parte não foi ele.
Connan inclinou a cabeça.
— Foi ela.
Anton sorriu de novo.
— A bruxa é linda — disse, sem pudor. — Muito mais do que naquele dia na floresta estava com um vestido minúsculo que me deixou louco…
Connan observou o amigo por alguns segundos antes de perguntar:
— E quando você pretende pegar a garota?
Anton se afastou da pia, caminhando até a sala da casa. Pegou uma garrafa sobre a mesa e serviu dois copos.
— Ainda não — respondeu. — Quero esperar.
— Esperar? — Connan aceitou o copo. — Desde quando você espera? Vai dar a chance para seu irmão roubar outra coisa de você? Tá com pena dele?
Anton deu de ombros.
— Desde que isso ficou interessante.
Connan o encarou com mais atenção agora.
— Explica.
Anton se recostou no sofá, as pernas abertas, o copo apoiado no joelho.
— Quero que ela escolha — disse. — Do mesmo jeito que Celeste escolheu, mas dessa vez eu vu ser o escolhido.
Connan franziu a testa.
— Você quer roubar a companheira do seu irmão?
— Não — Anton corrigiu, com um brilho estranho no olhar. — Quero que ela venha por vontade própria.
O silêncio se estendeu por alguns segundos.
— Quando eu a beijei… — Anton continuou, mais baixo — senti algo diferente.
Connan estreitou os olhos.
— Diferente como?
Anton respirou fundo.
— Como se o destino tivesse dado uma segunda chance.
Connan ficou imóvel.
— Você tá dizendo…
— Estou — Anton confirmou, antes que ele terminasse. — Ela é a minha segunda chance de companheira.
O impacto da frase caiu pesado.

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