“Ivy Collins”
Depois do jantar, todos se espalham pela sala de estar. Oliver corre direto para o tapete em frente à lareira, arrastando uma caixa enorme cheia de brinquedos.
Penso em me juntar a ele, qualquer coisa para me distrair, mas antes que eu consiga dar um passo, Eric surge ao meu lado com duas taças na mão.
— Vinho? — oferece, estendendo uma das taças para mim.
— Sério? — pergunto, levantando a sobrancelha. — Não tem medo da sua tia aparecer do nada e te dar uma bronca por oferecer bebida a alguém com menos de vinte e um?
— Vale o risco — ele responde, rindo. — E só se você quiser, claro. Normalmente, uma taça ajuda a sobreviver aos jantares dessa família.
Rio, porque… é justo. Talvez o vinho realmente ajude a diminuir a tensão que parece ter grudado em mim desde o jantar.
Aceito a taça, e logo Helen e Sophia se juntam a nós. Nos acomodamos em um dos sofás menores, enquanto os mais velhos ficam do outro lado da sala.
Blair se senta no braço da poltrona onde Lucas está, gesticulando animada enquanto opina sobre destinos imperdíveis para a viagem de primavera.
Lucas, por outro lado, parece incapaz de desligar. O notebook está apoiado no colo, os olhos presos à tela e um copo de whisky na mão.
Ainda assim, ele encontra tempo para me observar.
Sempre que rio de algo que Eric diz. Sempre que Sophia menciona alguma história constrangedora da infância deles.
Tento ignorar aquele olhar intenso, mas… é difícil fingir que não sinto.
— Então, Ivy — Helen começa, cruzando as pernas no sofá —, você tem namorado?
— Não — respondo rápido demais. — Por quê?
— Curiosidade — ela diz, com um sorrisinho nada inocente. — Porque o Eric está solteiro… e vocês dois fazem um belo casal.
— HELEN — Eric reclama, revirando os olhos. — Para de bancar o cupido. Vai acabar assustando a Ivy.
— Estou só brincando — ela responde, dando de ombros. — Ou não.
Sophia ri baixinho, observando a cena sem interferir.
Já eu… seguro a taça com força, sentindo o rosto esquentar.
Se o chão pudesse se abrir e me engolir agora, eu agradeceria.
Especialmente porque sinto o olhar de Lucas queimando na minha nuca.
Mais intenso do que antes.
— Vamos jogar alguma coisa — Sophia sugere, salvando a situação. — Que tal Banco Imobiliário?
— Banco Imobiliário leva umas seis horas — Helen reclama. — E ainda termina em briga.
— Então, Uno — Eric propõe.
— UNO! — Oliver grita do tapete, dando um pulo. — EU QUERO JOGAR UNO!
E, em poucos minutos, estamos todos sentados no chão da sala, espalhados em volta do tapete, jogando Uno.
Oliver está animado demais, errando as regras na metade das j**adas, mas ninguém corrige. Eric j**a sério demais, como se valesse um troféu invisível em jogo. Helen trapaceia descaradamente. Sophia ri tanto que mal consegue segurar as cartas.
E eu…
Estou me divertindo.
Mesmo quando, vez ou outra, minha mente insiste em puxar lembranças dos meus últimos natais, de quando eu ainda tinha uma família de verdade.
Ainda assim, estou aqui.
Jogando Uno com pessoas que, de algum jeito estranho e inesperado, estão fazendo esse Natal parecer menos solitário.
Até que Oliver boceja.
Fecho os olhos e deixo a água escorrer pelo corpo, tentando lavar o dia inteiro: o lago, o jantar, os olhares de Lucas que queimavam mais do que o whisky que ele bebeu.
Tento não pensar em como ele me encarou durante a noite. Não lembrar da voz baixa no corredor, da ameaça velada de que não iria parar da próxima vez.
Mas é inútil.
Meu corpo ainda carrega o fantasma do toque dele, da respiração quente perto demais da minha pele.
Respiro fundo, desligo o chuveiro e me enrolo na toalha. Saio do banheiro e sigo em direção ao armário, mas antes que eu chegue…
Toc. Toc. Toc.
Três batidas firmes na porta.
Meu coração dispara imediatamente.
Aperto a toalha contra o peito, encarando a porta como se ela pudesse se abrir sozinha.
Quem…?
Toc. Toc. Toc.
Mais forte dessa vez.
Engulo em seco e caminho até a porta. Hesito por um segundo antes de abrir. E quando abro…
Lucas.
Encostado no batente, ainda usando camisa do jantar, mas agora alguns botões estão abertos e as mangas arregaçadas até os cotovelos.
Os olhos verdes escurecem assim que me veem, percorrendo meu corpo sem o menor pudor.
— A gente precisa terminar aquela conversa — diz, baixo, com a voz rouca.

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