A dor de cabeça para não descer pelo resto do dia era mentira.
Bem… não completamente.
Minha cabeça realmente dói, mas não é aquele tipo de dor que um analgésico resolve.
É a dor de passar horas repassando uma conversa. De tentar, e falhar miseravelmente, parar de pensar nele.
Bato de leve a mão na testa, como se isso pudesse expulsar os pensamentos.
Não funciona.
Claro que não.
Uma batida suave na porta me tira do transe.
— Ivy? — A voz de Oliver vem do outro lado, abafada. — Você tá aí?
Suspiro, me levantando da cama antes de abrir a porta. Encontro Oliver parado no corredor, vestindo um suéter vermelho com renas bordadas, me olhando com a testinha franzida.
— Oi, astronauta — digo, tentando sorrir. — Tudo bem?
— Você não desceu pra brincar comigo — ele reclama. — Tá doente?
— Só estava com dor de cabeça — minto, me abaixando para ficar na altura dele. — Mas já passou.
— Então você vai descer pro jantar, né? — pergunta, com os olhos brilhando. — Tem peru. E batatas. E torta de maçã!
Sorrio de verdade dessa vez.
— Vou descer, prometo.
— ÊÊÊÊÊ! — ele comemora, pulando. — Não demora, senão eu volto aqui!
E sai correndo pelo corredor antes que eu possa responder.
Fecho a porta devagar, encostando nela por um segundo.
Jantar de Natal. Com a família Sinclair inteira.
E Lucas. Depois de ter sido prensada contra uma parede e de ter todos os meus limites testados.
Perfeito.
Vou até o armário e encaro as poucas roupas que trouxe. Não tenho nada que se compare ao que todos devem estar usando, mas há um vestido preto simples. Vai ter que ser ele.
Descer usando meu velho moletom não é uma opção.
Troco de roupa rapidamente, ajeito o cabelo e passo um pouco de batom. Pelo menos fico minimamente apresentável. E viva.
Assim que desço, o cheiro de comida invade o ar, fazendo meu estômago roncar. Algo entre peru assado e sobremesa.
Sigo o som de vozes e risadas até a sala de jantar… e paro na entrada.
A mesa é enorme. Coberta por uma toalha branca impecável, pratos de porcelana, taças de cristal, velas acesas no centro… e está cheia de gente.
Diana e John ocupam a cabeceira. Sophia, Eric e Helen ficam mais para o meio, rindo de algo que Eric acabou de dizer. Lucas está sentado em frente a Blair, conversando em voz baixa com um homem mais velho que não reconheço.
E Oliver… bem, esse praticamente salta na cadeira ao lado de um lugar vazio.
— IVY! — ele grita ao me ver, acenando de forma frenética. — VEM SENTAR AQUI!
Todos se viram.
Lucas levanta os olhos, e nossos olhares se cruzam por uma fração de segundo antes de ele desviar.
Blair me observa de cima a baixo, com aquele sorriso frio de sempre.
— Meio? — Sophia se mete na conversa, revirando os olhos. — É um campo de guerra disfarçado de reunião em família.
Helen solta uma risada baixa, concordando.
— Verdade. Mas, pelo menos, a comida compensa.
A conversa segue leve entre os três e, aos poucos, meu corpo começa a relaxar. Principalmente com Eric, que parece naturalmente fácil de lidar. Sem perceber, sorrio enquanto conversamos.
É… confortável.
Até que John ergue a taça de vinho, e o burburinho morre imediatamente.
— Antes de começarmos — ele diz, com aquele tom de quem está acostumado a ser ouvido —, gostaria de agradecer a presença de todos neste jantar. Família é o que temos de mais precioso.
Diana acompanha o gesto, erguendo a taça e assentindo.
Todos fazem o mesmo, e sou obrigada a pegar minha taça de suco, porque, aparentemente, nesta casa até o álcool respeita a legislação americana, e imitá-los.
— À família — John conclui, com um sorriso satisfeito.
— À família — todos repetem em uníssono.
As taças tilintam, e finalmente começamos a comer.
A comida está impecável. O peru está no ponto certo, as batatas praticamente derretem na boca e a torta de maçã… bem, Oliver não exagerou nem um pouco. Está com uma cara ótima.
Corto um pedaço do peru, propositalmente evitando olhar para o outro lado da mesa. Se Lucas está me observando, não sei. Se não está, melhor ainda.
Mas os arrepios involuntários ao longo da minha pele denunciam a verdade.
Eu sei perfeitamente qual das duas opções é.

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