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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 89

ADRIANO

A casa ficou em silêncio como só fica quando a noite já avançou o suficiente para expulsar qualquer ruído humano. Não havia passos no corredor, nem vozes abafadas na cozinha, nem o ranger das portas sendo abertas e fechadas. Os empregados já haviam ido embora para suas casas. Só Benedita ficou dormindo no antigo quarto de Marja.

Foi então que me sentei no sofá da sala, no escuro, sem acender nenhuma luz, como se a claridade pudesse denunciar o que eu pretendia fazer comigo mesmo.

A garrafa de uísque estava sobre a mesa de centro. Não era a primeira da noite, mas era a primeira que eu pegava com plena consciência do motivo. Girei a tampa devagar, ouvi o estalo seco, familiar, e servi um copo cheio. O líquido âmbar refletiu um brilho mínimo vindo da lua que entrava pela janela. Levei o copo à boca sem brindar, sem ritual. Apenas bebi.

O primeiro gole desceu fácil; não queimava mais. Servi outro copo. Bebi mais um gole.

A garrafa foi esvaziando sem que eu percebesse. Quando dei por mim, servi o último copo, virei de uma vez e deixei o vidro vazio sobre a mesa com um som seco. Fiquei olhando para ele por alguns segundos, como se esperasse que dissesse alguma coisa. Não disse. Garrafas nunca dizem nada. Elas só aceitam.

Levantei-me com dificuldade e fui buscar outra.

Essa segunda garrafa era igual a tantas outras que já abri naquela mesma sala, naquele mesmo sofá. A diferença estava em mim.

A bebida já começava a embaralhar os pensamentos, mas não o sentimento. Pelo contrário. O álcool sempre teve esse efeito perverso em mim: tirava as defesas, escancarava o que eu mais tentava esconder. Bebi mais.

A garrafa já estava pela metade quando senti o peso do cansaço se misturar ao torpor. Apoiei a cabeça no encosto do sofá e fiquei olhando para o teto escuro. A casa parecia diferente agora. Mais vazia

Bebi o último gole da noite sem sentir o gosto.

Respirei fundo, mas o ar não entrava direito. Algo em mim estava apertado, comprimido, e eu sabia exatamente o nome daquilo, ainda que tivesse passado aqueles meses fingindo não saber. Eu estava sentindo falta dela. De Marja.

O nome veio inteiro, sem aviso, como um golpe direto no peito. Não foi a lembrança vaga de alguém que passou pela minha vida. Foi a imagem dela completa: o jeito tímido de andar pela casa, o som da voz, o riso contido, o olhar firme quando precisava dizer verdades que ninguém mais tinha coragem.

Ela foi a única que ousou me enfrentar. A única que olhou para mim, não como o homem rico, o patrão, mas como alguém quebrado. Como alguém que precisava de ajuda e não de silêncio cúmplice. As palavras duras que me disse ecoaram agora, uma a uma, ganhando um sentido ainda mais doloroso.

“Você quer se matar?”

“O álcool está te destruindo.”

“Pense na Cecília.”

Na hora, eu reagi como sempre reagia diante da dor: com arrogância, com fuga, com violência nas palavras. Mas ali, sozinho, naquela madrugada, eu não tinha mais como mentir para mim mesmo. Tudo o que ela disse era verdade. Verdade nua, sem maquiagem. E foi exatamente por isso que doeu tanto.

A frase queimou dentro de mim.

Eu amei Marja sem perceber. E quando percebi, entrei em pânico. Porque amar significava perder o controle. Significava ter algo a perder outra vez. Significava aceitar que a dor poderia voltar com força total.

Então eu a expulsei.

Agora ela estava longe. Em uma cidade, em uma casa que eu nem sabia direito onde ficava. Eu nem perguntei. Nem quis saber. Fiz questão de não saber, como se isso fosse me proteger de alguma coisa.

O peito doeu de um jeito físico. Uma dor surda, constante.

Eu, que enfrentei perdas, negócios falidos, acidentes, morte, estava ali, desmontado pela ausência de uma mulher que entrou na minha vida quase por acaso. Ironia amarga.

. E eu... tudo o que eu tinha eram lembranças e arrependimentos. Um estoque infinito dos dois.

Olhei novamente para a escuridão da sala. A estrada do sonho voltou à minha mente. Antonella seguindo sozinha. Talvez aquilo não fosse apenas sobre ela. Talvez fosse sobre mim. Sobre o fato de que eu precisava, finalmente, escolher andar. Escolher viver. Escolher amar, mesmo com medo.

O medo ainda estava ali. Mas, junto dele, havia algo novo: a certeza de que eu não queria mais viver sem tentar. E o pensamento que me dominava naquele momento era que eu tinha que sair do abismo onde me enfiei.

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