Naquela manhã, ao chegar na Instituição de Ensino, o portão se abriu como no dia anterior, mas, dessa vez, eu não era mais uma visitante; era alguém que pertencia àquele espaço. Entrei e fui direto à recepção. A mesma moça sorriu ao me ver.
Elena apareceu logo depois, caminhando com passos firmes, mas leves. Estava vestida como todos os outros professores: calça escura e blusa branca, o uniforme que, curiosamente, não apagava a individualidade de ninguém. Pelo contrário, parecia criar uma espécie de igualdade silenciosa entre todos ali.
— Bom dia, Marja — ela disse, tocando de leve meu braço. — Tudo bem?
— Bom dia, Elena. Um pouco ansiosa, mas estou bem.
Ela sorriu.
— Venha, vou te apresentar ao nosso coordenador pedagógico.
Caminhamos pelos corredores enquanto Elena me explicava a dinâmica da escola e entramos numa sala. O homem loiro estava de costas, examinando alguns papeis.
— Professor Lucas, essa é Marja, a nova professora da nossa instituição.
Ele se virou e me olhou com uma expressão de espanto. Também fiquei surpresa ao vê-lo. E antes que Elena falasse mais alguma coisa, ele disse:
— Marja? É você mesmo? Nossa, quanto tempo!
— Então vocês já se conhecem? — Elena perguntou.
— Sim. Quer dizer, estudamos juntos, no ensino médio— respondi.
— O professor Lucas é o nosso coordenador pedagógico.
Lucas se aproximou e apertamos as mãos.
—Seja bem-vinda, Marja— Lucas falou com aquele jeito dele sempre muito expressivo, muito extrovertido.
— Muito obrigada — respondi.
— Bom, preciso ir — Elena falou — Até mais tarde, Marja.
— Até mais tarde, Elena.
Olhei para Lucas. Ele ainda tinha o mesmo rosto bonito e o sorriso fácil de sempre. E me olhava como quem tenta encaixar uma lembrança antiga numa moldura nova. Os olhos desceram rápido demais pelo meu corpo — não de forma vulgar, mas curiosa. Avaliando. Comparando a antiga Marja com a que estava ali agora.
E eu sabia. Sabia exatamente o que ele estava vendo.
Eu não era mais a garota atrapalhada, de roupas largas, cabelos sempre presos numa trança. Não era a “esquisita” que andava com livros demais e palavras de menos. Eu tinha aprendido a ocupar espaço. A escolher roupas que me pertenciam. A olhar de volta.
— Uau! — ele disse, sem perceber o quanto aquela palavra era reveladora. — Você… mudou. Mudou muito!
Sorri. Um sorriso pequeno, educado.
— As pessoas costumam mudar — respondi.
Ele riu, meio sem graça, como se tentasse se lembrar de quando tínhamos sido amigos. Ou do momento exato em que deixou de me tratar como gente.
— Por onde você tem andado? — perguntou.
— Por muitos lugares.
Não ofereci detalhes.
— Eu quase não te reconheci. — Lucas estava realmente surpreso. —Quer dizer… reconheci, mas… você está... diferente. Melhor que antes. Bem melhor.
As palavras bateram em mim com um atraso estranho. Não porque eu não acreditasse nelas, mas porque nunca tinha vindo da boca dele. Nunca quando teria importado. Quando eu era apaixonada por ele e tudo o que eu queria era que ele gostasse um pouquinho de mim.
— Lucas — eu disse, com suavidade —, não é bom que você seja visto em lugar público na companhia da “esquisita”.
A frase caiu entre nós como um objeto sólido.
Vi o sorriso congelar. Vi a confusão primeiro, depois o entendimento lento, pesado. Como se a memória tivesse sido puxada à força de um lugar empoeirado.
Ele abriu a boca, fechou. Passou a mão pelo rosto.
— Marja, aquilo faz tanto tempo. Eu era um idiota.
Permaneci calada.
— Na adolescência somos tão tolos! — Lucas continuou se explicando. — Mas se não fôssemos tolos não seríamos adolescentes, né?
Abri a boca para falar, porém, alguém bateu à porta e uma moça da secretaria entrou.
— Dá licença. Professor Lucas, trouxe esses papeis para você assinar.
Aproveitei aquele momento, pedi licença e saí da sala.
Ao longo da manhã, tudo fluiu de um jeito bastante natural. Eu ensinava, observava, aprendia. Me sentia útil. Presente. Viva.
No intervalo, conheci alguns professores. Todos me cumprimentaram com cordialidade, alguns com curiosidade, outros com sorrisos largos.
Ao chegar em casa, larguei a bolsa no sofá e me sentei por um instante, em silêncio. Levei a mão ao peito e respirei fundo. Eu estava começando de novo.
E quanto à Lucas, tive a coragem de lhe dizer algo que não tivera oportunidade na época. Isso foi tão libertador!

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