ADRIANO
Eu ainda estava na festa quando tudo começou a sair do lugar.
A mesa reservada onde estávamos, ficava do outro lado do palco, um pouco afastada. O prefeito falava alto, como se estivesse sempre discursando, mesmo quando contava histórias banais. A esposa dele sorria e o filho, um rapaz novo, mexia no celular com tédio, alheio a tudo aquilo que era tão importante para o pai.
Eu bebia. Não rápido, não como nos meus piores dias, mas bebia. Um copo de uísque, depois outro. O gelo tilintava, o líquido queimava a garganta e aquecia o peito. Era uma noite de encerramento, de discursos, de apertos de mão, de promessas vazias. Eu precisava estar ali. Precisava parecer inteiro, presente, o fazendeiro forte, o patrocinador exemplar. O homem que segue em frente.
Mas minha cabeça estava em outro lugar. Desde o acidente que matou Antonella e meu filho e que acabou com a minha vida, eu não sinto mais vontade de participar de festas, de comemorações ou nada parecido. Mas precisava estar ali, pela posição que ocupo.
No meio do barulho, do som sertanejo que vinha do palco, do riso alto do prefeito, eu ouvi alguém me chamar. Quando olhei, Jana já estava próxima de mim. Ela parecia assustada. Então abaixou e falou alto no meu ouvido por causa do barulho:
— Marja sumiu!
— O quê? — perguntei, mais alto do que pretendia. — Como assim sumiu? Você já procurou direito?
Levantei-me da cadeira sem perceber. O prefeito me olhou, surpreso. Me aproximei dele e disse:
— Surgiu uma emergência. Preciso ir.
Atravessei a área reservada, sempre acompanhado por Jana, desci os degraus e me misturei à multidão. A música estava alta demais, as luzes piscavam, as pessoas riam, dançavam, bebiam. Caminhávamos pelo meio do povo, enquanto Jana falava:
— Eu… eu estava com ela. A gente estava junta, aí um amigo se aproximou, eu me afastei só um pouco… quando voltei, ela não estava mais lá.
— Onde vocês estavam? — perguntei.
— Por aqui mesmo, próximo ao palco.
Chegamos perto do palco. O som era ensurdecedor ali. Dei um giro com o olhar. No meio de tanta gente era impossível encontrar alguém específico. Segurei os ombros de Jana com firmeza, tentando passar uma segurança que eu mesmo não sentia.
— Calma. Me conta tudo desde o começo.
Ela respirou fundo, olhando ao redor como se esperasse ver Marja surgir a qualquer momento.
— A gente estava assistindo à vaquejada, depois fomos comer. Um homem com quem eu dancei ontem veio falar comigo. Eu me afastei com ele, mas ficamos ali perto, a uns poucos metros. Marja ficou sozinha por alguns minutos… — a voz dela falhou. — Quando olhei de novo, ela não estava mais lá.
— Você ligou pra ela? — perguntei.
Eu deixei Jana perto do palco. Ela me olhou com os olhos grandes, cheios de medo e culpa, e eu tentei transmitir firmeza, mesmo sentindo o chão escapar sob meus pés.
O segurança principal da festa, um homem alto chamado Ramos, veio ao meu encontro. Expliquei a situação em poucas palavras, secas, diretas. Ele não fez perguntas inúteis. Apenas assentiu, comunicou algo pelo rádio e começou a andar comigo.
Passamos primeiro pelas barracas de comida. Olhei por trás de cada balcão, entre caixas de isopor, pilhas de copos descartáveis, sacos de gelo. Chamei por Marja em voz baixa no início, depois mais alto, ignorando os olhares curiosos. Nada. Nenhum sinal dela.
Seguimos para os banheiros químicos. Ramos abriu as portas uma a uma, iluminando com a lanterna. Pessoas reclamaram, xingaram, mas eu não ouvi direito. Cada segundo sem resposta parecia um peso novo sobre o peito.
Depois fomos para trás do palco. Ali o ambiente mudava. O som ficava abafado, as luzes mais fracas. Havia cabos pelo chão, caixas de som empilhadas, geradores barulhentos. Um lugar perfeito para alguém se esconder, ou para alguém desaparecer.
Ramos olhava atento, mão próxima ao rádio, girando lentamente a lanterna em volta. Nada. Nem uma bolsa caída. Nem um sapato esquecido. Nenhum rastro.
Seguimos para o estacionamento improvisado, uma área de terra batida onde carros se amontoavam sem muita ordem. Lanternas varreram placas, portas, sombras entre veículos. Eu me aproximei de cada carro, espiei, vasculhei e nada.
Depois de vasculhar tudo sem sucesso, uma sensação horrível começou a se formar: ela não estava mais ali. Não naquele espaço fechado, limitado. Se alguém a tinha levado, já estava longe.
Voltei para perto do palco com Ramos. Minhas pernas pareciam mais pesadas. Cada passo era acompanhado por um pensamento que eu tentava afastar: cheguei tarde demais.

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