— Creio que haja situações que são bem mais íntimas que isso, senhor Enzo. Se o senhor amar, não se importará com a forma como ela acorda.
— Se não for para me acordar com um boquete, eu não quero na minha vida.
— Ou seja... há uma possibilidade de alguma acordar na mesma cama que o senhor... nem que seja... para pagar um boquete.
Eu gargalhei:
— Como eu já disse, o dia que uma mulher amanhecer na cama ao meu lado, me interne. Isso seria a quebra de qualquer encanto que já tive por alguém. Detalhe: eu nunca tive.
— Farei o possível para encontrar as duas pessoas que o senhor deseja: a da batata frita e a que o dopou. Mesmo que tenha que subornar todos os adolescentes que vendem hambúrgueres, refrigerantes, batatas fritas e sorvete, senhor, na tentativa da informação de “quem” ofertou um palito de batata para o seu filho.
— E não esqueça a que me dopou. Essa é ainda mais importante.
— Tentarei encontrar as imagens nas câmeras que não gravaram. Juro.
— Isso... não é uma galhofa, não é mesmo, Aayush?
— Não. Eu jamais ousaria, senhor.
Ele levantou-se e me olhou?
— Poderia me dar uma folga no próximo final de semana?
— Por que você quer uma folga? — fiquei surpreso. — Eu te ofereci isso desde que veio trabalhar comigo e você usou apenas... duas vezes.
— É... pessoal, senhor.
— Eu não achei que não fosse. Mas... se eu te perguntar uma coisa, você me responderia?
— Se não for pessoal...
— Você é um robô? Zadock te criou secretamente como um protótipo de algo que pretende vender?
— Eu não sou um robô, senhor.
— De que você se alimenta, Aayush? Você bebe? Você vai ao banheiro? Você tem sentimentos? Você sorri? Você... fode?
— São perguntas bem pessoais, senhor.
Suspirei e deitei a cabeça no sofá, fechando os olhos:
— Tem a sua folga, Aayush. E pode ir. Preciso ficar um tempo sozinho, para ver como irei recepcionar a Maçãzinha amanhã.
O telefone de Aayush tocou e abri os olhos. O telefone dele só tocava se fosse algo a meu respeito. Eu duvidava que meu assistente tinha um telefone pessoal.
Ele me olhou enquanto assentia com palavras monossílabas para a pessoa do outro lado. Quando encerrou a ligação, me encarou:
— Senhor, Maçãzinha está numa boate de periferia nesse momento. E com o namorado.
Levantei imediatamente:
— Mande preparar a minha moto. Agora!
POV Maria Fernanda
— Aceita uma bebida? — o homem com cabelos loiros e cacheados me ofereceu.
Parecia um anjo de tão lindo. Para mim homens de cabelos encaracolados sempre pareceram anjos. Infelizmente depois que eu conheci um moreno de cabelos escuros e lisos meu mundo virou de cabeça para baixo. Assim como os meus gostos.
Fui abrindo caminho entre a multidão dançante até deparar-me com uma muralha de músculos enrijecidos, que impediu minha passagem. Olhei para cima, sentindo um frio percorrendo a minha espinha. E então...
— Enzo? — minha voz mal saiu.
Fechei os olhos e passei os dedos nas pálpebras com força. Eu odiava vê-lo em todos os lugares que eu estava. E odiava ainda mais a forma como ele invadia os meus pensamentos.
Quando abri os meus olhos, ele ainda continuava ali, com aqueles cabelos escuros, despenteados, algo que eu nunca tinha visto antes... a camiseta branca, a jaqueta de couro e a calça jeans (sim, ele estava usando jeans) colada ao corpo, que deixava a mostra o volume entre as suas pernas.
Balancei a cabeça, atordoada. Centímetros nos separavam.
— O que... você está fazendo aqui... senhor Asheton? — tentei manter a formalidade, embora o momento a destruísse.
— Eu... sempre venho aqui. Você também?
— Não. — estreitei os olhos, confusa. — Eu... nunca vim aqui. É a primeira vez.
— Que puta coincidência. — ele sorriu, pegando para si o que ainda havia do meu coração que já não era totalmente dele.
Ficamos um tempo nos olhando, em silêncio. Ok, não tinha como aquele homem não lembrar que transamos há um tempo. Dava para ver perfeitamente no modo como nossos corpos praticamente se encaixavam de que a aquela química já tinha sido experimentada antes.
— Aceita... que eu te pague uma bebida? — ele perguntou, rompendo o silêncio.
— Eu... não posso beber. Amanhã tenho que trabalhar... cedo.
— É só uma bebida, Maria Fernanda. Estou me sentindo totalmente deslocado aqui. — ele olhou para os lados, parecendo fora de lugar.
— Deslocado? — eu ri — entendi que esse era o seu habitat natural. Disse que sempre vem aqui.
— Ah... eu venho mesmo. Mas... — pegou minha mão e puxou-me entre a multidão, obrigando-me a acompanhá-lo. — sempre me sinto deslocado.

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