POV Enzo
— Davi, a partir de amanhã você terá uma babá. — avisei.
— Você já disse, papai. — ele me olhou.
— Sim, eu sei que já tinha lhe dito. Mas não avisei quando aconteceria. E temos que fazer alguns combinados.
— Combinados? — ficou com o lápis colorido no ar, parecendo um pouco mais interessado.
— Ela vai cuidar de você... mas quem vai continuar cuidando da sua comida é a Pietra.
— Tudo bem. — deu de ombros e voltou a desenhar.
— Eu quis dizer que... você não pode comer nada que a babá lhe oferecer, entendeu?
— Nem se for felicidade em forma de comida?
Abaixei-me e peguei sua mão, encarando-o:
— Davi, não existe felicidade em forma de comida.
— Nem se forem... batatas fritas?
— Batatas fritas são o que os nutricionistas chamam de caos metabólico. Cada palitinho destrói os seus sonhos nutricionais. É a prova de que o ser humano escolheu prazer e não saúde.
— Mas é bom. — desviou os olhos dos meus e voltou a desenhar — quando eu crescer, vou comer só batatas fritas.
Respirei fundo. Como eu gostaria de matar a pessoa que, sem minha autorização, deu batata frita para o meu filho comer.
Levantei e observei o desenho dele. E lá estava ela: a moça de cabelos amarelos com um palito de batata na mão. Ela sorria, com uma boca bem grande, totalmente desproporcional ao corpo.
— O que está mulher está fazendo aqui, Davi?
— Eu não acabei o desenho, papai.
— Mas ela... quem é?
— Felicidade em forma de comida, papai. — ele sorriu e me olhou — ela pode ser a minha babá?
Suspirei e tentei me acalmar:
— Não, ela não pode ser a sua babá. Isso não daria certo, porque ela lhe ofereceu uma coisa nada saudável para comer. Não comemos nada que vá óleo, entendeu? Sei que os palitinhos parecem inofensivos, mas não são. Eles aparecem até no seu exame de sangue, sob o nome de colesterol.
— Meus amigos comem batatas fritas. Eles me contaram que fica ainda melhor com hambúrguer.
Suspirei, me jogando para trás no encosto do sofá, tentando relaxar. Virei a cabeça na direção dele e perguntei:
— Você vai encontrar essas pessoas, não é mesmo?
— Isso quer dizer que Maçãzinha está dos suspeitos?
— Ela tem aquela carinha de anjo, aquele corpo lindo e perfeito, os lábios maravilhosos que só sabem dizer verdades disfarçadas de sarcasmo... mas é sim uma suspeita, Aayush. Não podemos nos deixar levar por um rostinho bonito. Zadock fez isso. E olha o fim dele.
— O fim dele seria... uma esposa, uma filha e dois cachorros? — Aayush estreitou os olhos — Ele não está morto, senhor. Pelo contrário... eu acho que o senhor Zadock está... feliz.
— Não existe felicidade, Aayush. Ao menos não para pessoas como eu ou Zadock.
— Será que a felicidade não pode estar... numa mulher, senhor?
Eu ri:
— Você encontrou a felicidade numa mulher, Aayush? Emma foi a maior filha da puta com você. E a prova de que amor é uma merda. Só há um amor real no mundo: o que sentimos por um filho.
— Realmente a felicidade não pode estar numa mulher... ao menos não nas que o senhor contrata para satisfazerem as suas necessidades. Elas não têm emoções ou sentimentos, senhor. Vivem de sexo e tratam isso como um trabalho.
— E para mim está ótimo assim. Também as vejo como trabalhadoras. Aliás, um trabalho “duro”, literalmente. Porque se não fica duro, não recebem. Ao menos eu não pago. Elas são seguras. Fazem o que eu quero, viram as costas e vão embora quando as dispenso. Não exigem nada destas babaquices como acordar ao seu lado, esperar uma ligação no dia seguinte. Quando eu fizer isso, mande me internar Aayush... porque eu realmente estarei doido de pedra. Você já acordou com uma mulher ao seu lado? Cabelo destruído, maquiagem derretida... deve ser horrível! É muita intimidade para compartilhar.

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