— Proteger, família Carvalho? — Margarida disparou, com ironia. — Se vocês realmente quisessem me proteger, nunca teriam me transformado de vítima em vilã, nunca teriam feito questão de me pisotear e sugar tudo o que eu tinha para dar, nem teriam tentado me calar a todo custo, proibindo que eu pedisse socorro. Podem até dizer que lá fora a vida seria difícil, mas, se eu continuasse aqui dentro, é bem provável que terminaria destruída de verdade. Só que ninguém ia ver, porque iriam dar um jeito de varrer até meus ossos para debaixo do tapete.
Ouvindo aquilo, Luísa não conseguiu responder. Sabia, no fundo, que sempre participara desse ciclo, e agora, diante da filha, não encontrou forças nem argumentos para se defender.
Naquele momento, a voz firme de Carlos cortou o silêncio:
— Está certo, eu concordo. Margarida, vou providenciar o acordo que você quer. Antes da coletiva, pode contar que vai estar em suas mãos.
No fundo, era só mais um cálculo dele, pois se quisesse o acordo, Margarida teria que garantir presença no evento, e assim, Carlos não dava nenhuma chance para que ela mudasse de ideia na última hora.
Era difícil pensar em alguém mais estrategista.
Entretanto, Margarida se manteve firme e, sem titubear, respondeu:
— Perfeito. Na coletiva a gente acerta tudo. Vou receber o acordo e fazer minha parte. Pode apostar que dessa vez vocês vão ter o espetáculo que tanto esperavam.
Carlos concordou com a cabeça, satisfeito:
— Fico muito feliz em ver essa maturidade da sua parte, Margarida. Gostaria de poder te compensar por tudo, mas, já que é sua escolha, vou respeitar.
Sem mais adicionar nada, ela subiu as escadas sem olhar para trás.
Luísa ficou parada ali, sem conseguir reagir, sentindo o peito doer e os olhos secos, como se nem para chorar lhe restasse força. A sala pareceu perder a cor.
Coube então a Carlos encerrar a cena, batendo com força na mesa e dizendo, com os nervos à flor da pele:
— Então era isso tudo, né? No fim das contas, toda a docilidade da Margarida era só fachada! Sempre foi rebelde, impossível de controlar. Pois a gente não precisa mais fazer média. Augusto, toma as rédeas dessa coletiva. Quero a maior de todas, para ninguém botar defeito!

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