Vicente encarava Margarida com seus olhos escuros e profundos, transmitindo uma frieza tão cortante que, mesmo estando parado bem diante dela, dava a sensação de uma divindade inatingível.
Quase sem perceber, Margarida enrijeceu o corpo e ficou incapaz de dizer qualquer coisa. Naquele instante, Vicente já se afastava, e Lorenzo correu atrás dele, sendo em seguida cercado por várias pessoas que faziam de tudo para agradá-los.
O perfume dos trajes e o vaivém de penteados elaborados criavam um ambiente extremamente movimentado, como se toda a festa fervilhasse de entusiasmo.
Ao ver aquela cena, Teresa abriu a boca sem conseguir emitir som por um bom tempo. Só depois de alguns segundos ela recuperou a voz e perguntou:
— Margarida, por que o Vicente está tão frio assim?
Margarida baixou a cabeça, sentindo-se levemente culpada.
— Talvez seja porque a gente não sabe respeitar os limites dele. — Ela murmurou. — Eu mencionar que não dormi bem é algo tão pequeno. Se uso isso como desculpa para incomodá-lo, é natural que ele fique indiferente.
Teresa franziu o cenho e demonstrou preocupação.
— Mas, com o Vicente sendo desse jeito tão assustador, como você vai oficializar o casamento com ele no cartório depois?
A pergunta fez a cabeça de Margarida girar. Afinal, como ela poderia ir ao cartório se até agora não havia recuperado seus documentos? E o que mais a deixava nervosa era pensar que naquele dia já era o sétimo dia desde que tudo havia começado.
Aflita a ponto de perder o sono, Margarida não conseguia convencer Augusto a devolver os papéis.
Se esse dia terminasse sem que ela tivesse os documentos em mãos, o prazo de sete dias se esgotaria, e ela certamente não precisaria nem pensar em formalizar a união com Vicente. Essa possibilidade a deixava abalada, e ela soltou um suspiro pesado, quase em desespero.
Interpretando aquele suspiro como medo, Teresa tentou consolá-la.
— Margarida, não fica assim. Pode ser que a atitude fria do Vicente não tenha nada a ver conosco. Quem sabe ele esteja irritado por outros motivos.
— Teresa, eu não estou nervosa. — Disse Margarida, balançando a cabeça e desviando o olhar. Ela não queria encher Teresa de preocupações, ainda mais quando tudo ainda era muito incerto. Por isso, resolveu mudar de assunto. — E você e o Lorenzo? Mesmo depois de tantos anos, não conseguiram melhorar a relação?
Teresa soltou um sorriso resignado.
A verdade era que Margarida também desejava aconselhar Teresa a desistir desse casamento tão doloroso.
No entanto, ela não podia fazê-lo.
Primeiro, porque não tinha autoridade para achar que podia convencer as duas famílias a romperem o compromisso. Segundo, porque ela mesma já havia amado alguém de forma submissa no passado, e entendia que, no amor, às vezes não precisava de mais nada além de ter a pessoa amada por perto para se sentir feliz.
Atualmente, o amor de Margarida havia morrido, mas o de Teresa continuava vivo. E, sobretudo, comparando-se a Margarida, Teresa ao menos tinha um relacionamento legítimo. Ela estava ao lado de Lorenzo, com nome e status de esposa, sem barreiras sociais ou qualquer diferença de posição que a impedisse de ficar com ele.
Por isso, Margarida acreditava que Lorenzo só não gostava de Teresa ainda porque não a conhecia de verdade. No dia em que ele descobrisse quem ela era de fato, Teresa realizaria certamente o sonho de conquistar o coração dele.
Margarida torcia de todo o coração para que a amiga alcançasse a felicidade completa que ela mesma jamais pôde ter.
Teresa, que até então estava a ponto de chorar, não resistiu às palavras de Margarida e acabou abrindo um sorriso em meio às lágrimas. Com carinho, ela beliscou de leve a bochecha da amiga e quis abraçá-la, sentindo o impulso de demonstrar toda a sua gratidão.
No entanto, justamente naquele momento, um barulho repentino irrompeu, trazendo uma agitação inesperada ao pequeno espaço em que se encontravam.

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