Vicente já carregava há muito tempo a fama de ser implacável em Santarino, conhecido por métodos cruéis que não ofereciam trégua nem perdão a quem ousasse cruzar seu caminho.
Augusto permanecia sentado ao lado, sentindo seus olhos claros se turvarem atrás dos óculos conforme absorvia a primeira parte das palavras de Vicente, enquanto Leonor e Marina empalideceram visivelmente com a segunda metade da declaração.
Marina lutava para manter o sorriso forçado que começou a endurecer até se transformar numa máscara de gelo.
O silêncio pesado que se seguiu foi quebrado apenas quando Marina apanhou um palitinho com movimentos robóticos e espetou um pedaço de fruta, como se precisasse de algo para ocupar as mãos trêmulas.
— Vicente, todos aqui sabemos que você é muito capaz, mas dizer que com uma simples palavra consegue fazer o Grupo Almeida inteiro se dobrar às suas ordens não é um pouco exagerado? — Marina tentou recuperar o controle da situação, forçando um tom maternal que não conseguia disfarçar completamente a tensão. — O Grupo Almeida ainda pertence ao seu pai, não pertence? Seu pai está no auge da vida, e você falar assim... já parou para pensar nos sentimentos dele?
Marina se virou para Margarida com aquela expressão condescendente de quem dava conselhos de mãe experiente.
— E você, Margarida, vendo seu marido se comportar de forma tão arrogante, como esposa, deveria dar uns toques nele. — Marina falava como se estivesse genuinamente preocupada com o bem-estar de Guilherme, defendendo seus interesses sem nenhuma motivação egoísta.
Vicente a observava com olhos que se tornavam mais gélidos a cada palavra, principalmente após ouvir Marina ter a audácia de meter o bedelho na vida de Margarida.
— Marina, você ouviu que já tenho o Grupo Almeida na palma da mão e que não sobra espaço para seus filhos se meterem, por isso está entrando em desespero, não é isso? — Vicente cortou direto ao ponto.
Marina engasgou na hora e perdeu a fala.
— O que houve? O que o Vicente te disse? — Guilherme perguntou, com a voz tensa.
— Nada demais. Vicente apenas apontou meu erro e me fez perceber que falei de forma inadequada... — Marina gaguejava, enquanto tentava juntar os cacos.
— Tem certeza disso?
— Tenho, sim, tenho sim. Hoje todos viemos aqui para resolver o conflito entre as famílias Almeida e Carvalho devido ao dote, não foi? Então vamos continuar falando sobre o dote. — Marina tagarelava de forma atrapalhada, lutando para recuperar a compostura.
Como ela poderia contar para Guilherme que Vicente estava mexendo no caso do sequestro de treze anos atrás que resultou na morte de Sofia? Especialmente quando ela havia sido uma das principais arquitetas daquele plano!

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