De repente, o vento soprou com fúria, e nuvens pesadas tomaram conta do céu.
A chuva, que passava o dia inteiro ameaçando cair, enfim desabou numa tempestade impiedosa. Foram cinco dias seguidos de aguaceiro, sem trégua. Somente na manhã do sexto dia o sol voltou a brilhar, tímido, como se pedisse licença para romper a escuridão.
Contudo, enquanto o mundo lá fora parecia enfim se iluminar, o ambiente na família Almeida permanecia mergulhado em sombras.
Para Leonor, não havia a menor fresta de luz. Ainda pior, a cada instante ela sentia trovões retumbarem dentro de si, numa inquietação crescente.
Amanhã seria o último dia do prazo dado por Vicente.
Caso Leonor continuasse sem tomar partido, seria enviada à prisão para cumprir dez anos de pena. Se escolhesse receber a punição interna da família, seria arrastada à capela particular da família Almeida para encarar uma hora inteira de chicotadas como tradição da família.
Aquela perspectiva a perseguia desde a infância. Lembrava-se perfeitamente de ter visto Vicente passar por aquilo uma vez e, mesmo sendo ele um homem cheio de energia e força, ficou um mês inteiro imobilizado na cama. Como alguém criada com todos os mimos, ela suportaria tamanha violência?
Só que largar o Grupo Almeida também não parecia viável, nem de longe. Sua mãe, Marina Neves, a pressionaria de todas as formas possíveis.
Afinal, havia sido ela quem tanto se esforçava para colocar Leonor na empresa, e não suportaria ouvir sequer falar em desistência.
Nos últimos dias, Leonor deixava de ir ao trabalho, consumida pelo medo e pela indecisão. Marina, porém, atribuía tudo a preguiça e já vinha até seu quarto para ter uma conversa séria.
Naquele dia, ao entrar, Marina bateu de leve na porta antes de falar com um tom firme:
— Leonor, se você está cansada e quer um tempo para descansar, eu posso deixar. Mas espero que tenha noção do que está fazendo. Há um ano, movi montanhas para conseguir que você entrasse no Grupo Almeida. Hoje, Vicente está muito mais poderoso e, se você quiser continuar levando uma vida decente, pior que isso, se quiser continuar como uma pessoa minimamente relevante neste mundo, precisa fazer de tudo para se firmar onde está.
Ficar em casa era como viver num inferno para Leonor. Ela mal conseguia dormir e, quando finalmente adormecia, era perseguida por pesadelos. Na noite anterior, por exemplo, havia sonhado que foi parar atrás das grades e torturada até a morte.
Augusto, que havia acabado de concluir um trabalho, estava na cozinha pegando um copo de água para tomar seu remédio de estômago. Assim que ouviu a voz afligida de Leonor, tentou manter a calma e falar num tom suave:
— Leonor, não fica nervosa. Ainda temos mais um dia. Vou dar um jeito de fazer Margarida concordar.
— Não! Não vou mais esperar por você! Vou resolver isso sozinha! — Explodiu Leonor, a raiva faiscando em sua voz. — Amanhã é meu aniversário, e minha mãe alugou um barco para comemorar em alto-mar. Eu tenho meus próprios planos, e Margarida vai ter que concordar comigo, queira ela ou não!
Encerrando a ligação sem hesitar, Leonor deixou claro que já tinha tudo planejado em sua cabeça. Do outro lado, com o celular ainda na mão, Augusto franziu o cenho e o apertou com força. Sentiu a irritação queimando dentro de si, mais intensa do que a dor que castigava seu estômago, e percebeu que seria difícil controlar aquele mal-estar crescente.

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