Em meio à confusão, mesmo sendo mantida no chão, Luísa piscou de forma estranha quando ouviu as últimas palavras de Margarida, como se algo a assombrasse de verdade.
Margarida já não conseguia enxergar com clareza. A perda de sangue combinada com o turbilhão emocional fez sua visão escurecer em ondas sucessivas, e depois de destruir a bolsa de grife, suas pernas cederam e ela desabou para trás.
Vicente, que não saía do seu lado nem por um segundo, a amparou nos braços antes que tocasse o chão e a levou dali num piscar de olhos.
...
Vicente trouxe Margarida ao Hotel Luar, onde um médico particular de extrema competência começou a tratar dos ferimentos em suas mãos com muito mais agilidade do que qualquer pronto-socorro conseguiria.
Na verdade, Margarida não havia desmaiado, apenas se sentia fraca demais para reagir. Os exames revelaram que, por sorte, os nervos da mão estavam intactos, mas ela ainda precisaria de uma pequena cirurgia.
Vicente havia removido os cacos maiores da superfície dos cortes, porém fragmentos menores permaneciam alojados em camadas mais profundas e só sairiam com uma incisão adequada.
Depois de uma hora inteira de procedimentos, quando Margarida teve finalmente as mãos enfaixadas, estava com o rosto completamente sem cor.
Ainda assim, ao ver Vicente, que permanecia ao seu lado durante todo o tempo e também parecia abalado, ela se esforçou para demonstrar gratidão.
— Sr. Vicente, muito obrigada. — Disse Margarida, com voz fraca.
Embora não tivesse conseguido reaver as coisas do pai, sem a ajuda de Vicente ela jamais descobriria que tudo havia sido vendido.
Que situação desoladora!
Vicente observou os lábios pálidos de Margarida, encheu um copo com água morna e colocou ao alcance dela.
— Se não consegue sorrir de verdade, não se force por minha causa. Pode ficar tranquila, o que a Luísa aprontou desta vez não vai passar em branco. Vou garantir que ela pague pelo que fez.
Margarida olhou para Vicente e dessa vez não tentou forçar nenhum sorriso. Seu rosto abatido recuperou um pouco de cor, pois a compreensão e o apoio de Vicente trouxeram algum alívio ao seu coração gelado.
Mesmo assim, com aquele carinho, o fundo dos olhos de Margarida ainda guardava lágrimas contidas e uma dor que parecia ter raízes profundas.
Por mais que Luísa fosse castigada, as coisas pelas quais ela esperava e sonhava por mais de dez anos haviam sumido para sempre. O dote que o pai lhe deixava, as relíquias da família Cardoso passadas através das gerações, no fim das contas ela havia perdido tudo.
Baixou os cílios com exaustão, sem conseguir erguer a cabeça. Depois de voltar para a casa nova, Vicente a carregou no colo pelas escadas até o quarto.
Deitada na cama macia que já conhecia bem, Margarida fechou os olhos fingindo que estava com sono. Mas assim que Vicente saiu do quarto, abriu os olhos de novo e ficou contemplando a lua cheia que brilhava entre os galhos das árvores lá fora, como se estivesse vendo pessoas queridas que partiram há muito tempo.

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