Como Augusto e Carlos estavam trabalhando no escritório, só tinha Luísa e um punhado de empregadas aterrorizadas em casa, todas grudadas nas paredes o mais longe possível da cena, com medo de que Margarida tivesse pirado de vez e decidisse fazer uma chacina geral.
Luísa estava sendo pressionada a ponto de mal conseguir respirar, e depois de várias tentativas frustradas de se soltar da filha, só conseguia gritar por socorro entre goles de ar:
— Margarida, pelo amor de Deus, eu sou sua mãe! Você quer virar uma matricida que o mundo inteiro vai apontar o dedo? Essa situação toda é culpa sua, você que criou essa bagunça! Vocês aí paradas que nem bobas, chamem a polícia agora! Chamem para levar essa maluca embora daqui!
As palavras de Luísa ecoaram pela sala e foram que nem uma punhalada no peito de Margarida, que sentiu o coração gelar ainda mais.
Maluca. Era assim que a própria mãe se referia a ela.
Mas a pessoa que tinha transformado ela numa maluca era exatamente a Luísa, que mesmo agora não conseguia enxergar o próprio erro e jogava toda a culpa na filha que passou a vida inteira sugada por ela.
O desespero que tomou conta de Margarida foi tão profundo que ela nem teve energia para impedir quando viu uma das empregadas no canto da sala pegando o celular para chamar a polícia.
— Quem ousa chamar polícia?
Mas foi naquele momento que passos pesados e decididos ecoaram pela casa, e Vicente apareceu na sala com uma presença tão intimidadora que todo mundo travou na hora, inclusive a empregada que jogou o celular longe que nem se tivesse pegado fogo.
Margarida congelou com a expressão de dor e desprezo ainda estampada no rosto, sem tempo de disfarçar ou se recompor.
Vicente foi direto até ela sem hesitar um segundo, segurou a mão ferida com firmeza e forçou os dedos gelados e enrijecidos dela a se abrirem, ignorando completamente a resistência.
O barulho seco do vidro se estilhaçando no piso ecoou pela sala com respingos de sangue vermelho vivo, e finalmente deu para ver o estrago completo na palma da mão de Margarida. A pele aberta em carne viva e o corte tão fundo que dava para ver o osso.
Margarida sentiu o sangue gelar nas veias e os olhos queimarem de lágrimas contidas, sabendo que tinha perdido Vicente para sempre e que ele estava começando a sentir nojo dela.
Mas foi naquele momento que as mãos grandes e quentes dele envolveram com cuidado a mão ferida dela, removendo com precisão cirúrgica cada pequeno caco de vidro que estava cravado na carne, antes de arrancar a gravata preta do próprio pescoço e fazer um curativo improvisado bem apertado no ferimento.
— Se você queria machucar alguém, por que diabos foi você mesma que saiu toda destroçada? — Vicente perguntou com a voz grave e controlada, mas o rosto bonito, tenso que nem uma corda de violão, os olhos escuros brilhando com uma emoção que Margarida não conseguia decifrar.
Ela tinha ficado o tempo todo com o vidro no pescoço da Luísa sem fazer nem um arranhão na mulher, enquanto a própria mão estava praticamente inutilizada!
— Margarida, o que vou fazer com você?

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