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A Amante que Virou Cunhada romance Capítulo 15

Vicente havia chegado.

Talvez tivesse algum assunto urgente para resolver no Hotel Luar, pois surgiu sem aviso ao lado de Marcos, avançando a passos largos, o semblante tenso e o olhar negro tão profundo quanto um abismo.

No momento em que Margarida o viu, encostado num canto, enquanto ela sentia o peito apertar a ponto de quase não conseguir respirar, relaxou como se, de repente, todo o barulho doloroso ao seu redor tivesse simplesmente sumido.

...

Minutos depois, Margarida voltou para o quarto amparada por Marcos e se submeteu a outro exame do médico particular. Durante todo o procedimento, ela não pronunciou uma palavra.

Felizmente, o estado de seu corpo não era grave. O ferimento na perna não abrira, e o principal problema vinha da falta de alimentação, que lhe causava uma leve hipoglicemia.

Assustado com o diagnóstico, Marcos saiu com o médico para providenciar comida e, por segurança, trancou bem a porta ao sair. Por um breve instante, na ampla suíte, só ficaram Margarida e Vicente.

Vicente estava sentado no sofá, a expressão séria estampada no rosto, como se suas sobrancelhas afiladas fossem lâminas prontas para cortar. Depois de um instante de silêncio quase evidente, ele finalmente falou, em tom baixo:

— Tem alguma coisa que você queira me dizer?

Fazia apenas meia hora que ele havia recebido a ligação aflita de Marcos, que o havia avisado sobre o encontro inesperado de Margarida e Augusto no hotel. Assim que soube, Vicente dirigiu às pressas até lá.

Enquanto relembrava o semblante pálido e atordoado da moça, sentiu que talvez ela estivesse esperando que ele interviesse em seu favor.

Margarida, por sua vez, congelou. Seu corpo inteiro ficou rígido, e o pescoço longo e claro parecia colado a uma tábua, sem conseguir se mover por alguns segundos. Mesmo assim, os lábios, que tinham marcas de dente de tanto que ela os havia mordido, não conseguiam esconder sua inquietude. Foi então que ela arfou baixinho e, com a voz contida, murmurou:

— Sr. Vicente, eu realmente tenho algo para te dizer. Você disse antes que eu precisaria de algo grande para compensar aquele favor. Então, posso te pedir um grande favor agora?

Vicente estreitou o olhar, como se tivesse esperado bastante tempo e, ainda assim, fosse pego de surpresa pelo que Margarida tinha a dizer.

Passados alguns instantes, a frieza que emanava dele se intensificou ainda mais, e de perfil, parecia uma estátua de gelo de beleza incomparável.

— Está tão ansiosa para acertar as contas do favor que me deve? Tudo bem. Diga logo qual é o seu grande assunto, e vou decidir se é suficiente para liquidar nossa dívida.

— É suficiente, desta vez com certeza é. — Margarida apertou as mãos quase sem perceber. Ela estava tão nervosa que quase poderia morder a própria língua ao falar, mas mesmo assim acenou com firmeza. Afinal, o que tinha para dizer era algo tão grande que abalaria qualquer um.

Ao ouvir aquilo, Vicente não demonstrou alteração alguma na expressão. Seu semblante permaneceu frio, sem qualquer sinal de surpresa.

O rosto de Margarida, delicado como se fosse esculpido em porcelana, corou ainda mais. Ainda assim, ela cerrou os dentes, reuniu toda a sua coragem e se lançou de vez:

— Sr. Vicente, você poderia se casar comigo?

Ao acordar naquela manhã, Margarida ainda acreditava piamente que não podia pagar a bondade de Vicente com ingratidão. Porém, depois de reencontrar Augusto e Leonor, sua perspectiva mudou completamente.

Por isso, desde que Vicente a levou de volta àquela suíte, ela se manteve em silêncio. Não era porque a fome a impedia de falar, mas sim porque vinha refletindo em silêncio sobre como propor a Vicente a troca daquele favor por um casamento.

Ela mesma sabia que esse pedido soava absurdo na situação em que se encontravam. Assim, depois de soltar aquela primeira frase um tanto abrupta, Margarida se apressou em completar baixinho:

— Sr. Vicente, eu... eu não deixei você assustado, deixei?

Vicente não emitiu som algum. Na verdade, tão logo Margarida revelou aquelas palavras surpreendentes, ele congelou de vez, tal qual uma estátua.

"Sr. Vicente, você poderia se casar comigo?"

Aquela frase ecoava incansavelmente nos ouvidos de Vicente, quase o ensurdecendo. Ele fechou os olhos com força e, só então, recuperou um pouco a própria voz:

— Mas que ideia é essa? Por que está dizendo isso de repente?

Margarida se atrapalhou, pois só naquele momento se deu conta de que ele não fazia ideia do que Marcos lhe havia contado no dia anterior.

— Sr. Vicente, é o seguinte... Ontem à noite, o gerente do hotel me falou algumas coisas sobre você. Entendi que você está em conflito direto com sua madrasta e não quer que ela te imponha mulheres com segundas intenções. Eu não tenho nenhuma intenção ruim contra você. Então, se não achar ofensivo, gostaria de ajudar a servir de escudo, pode ser?

— Eu acredito que isso seja aquele traço ruim que certos homens têm de querer tudo ao mesmo tempo. Mas se eu for forçada a continuar sendo manipulada por Augusto, Leonor também vai me perseguir sem trégua. Eu realmente não quero mais me desgastar com eles.

O passado lhe pesava como um longo fardo. Treze anos de envolvimento tolo com Augusto a deixaram com a sensação de ter sido usada e enganada por tempo demais. Se continuasse naquele pântano de relacionamentos tóxicos, um dia acabaria afundando de vez, sem ter como voltar à tona.

Por isso, para sair daquele círculo vicioso, Margarida enxergava em Vicente a única salvação possível.

— Sr. Vicente, eu sei que você não gosta de mim. — Começou Margarida às pressas, a voz um pouco trêmula. — E só sente algum tipo de obrigação, sem nenhuma intenção de realmente se casar. Por isso já pensei em tudo. Vamos ter apenas um casamento de conveniência. Quando der três anos, eu saio de mãos vazias sem reclamar nada.

Vicente permaneceu calado por um longo tempo, sem qualquer indício de emoção no semblante. Por fim, ele se limitou a perguntar:

— Você acredita mesmo que, depois de três anos, Augusto e Leonor vão simplesmente deixar você em paz?

Margarida piscou algumas vezes, sem saber ao certo se Vicente achava três anos muito ou pouco. Ainda assim, resolveu continuar:

— Acredito que, em três anos, aquele lado mais perverso do Augusto em relação a mim talvez se esgote. Assim que ele perder o interesse, Leonor também não vai querer desperdiçar tempo comigo. Vá lá, na pior das hipóteses, se depois de três anos qualquer um dos dois ainda quiser me atormentar, eu, afinal, vou ter sido cunhada deles por todo esse período. Ainda que a gente se divorcie, por consideração ao que vivemos, imagino que eles vão pensar duas vezes antes de vir atrás de mim.

Ela respirou fundo, contendo um certo tremor nas mãos. O mais importante para Margarida era que, em três anos, se dedicasse com afinco aos próprios negócios.

Quando chegasse o momento, não acreditava que ela continuaria sem ter meios de proteger a si mesma diante de Augusto e Leonor.

Vicente respondeu com uma grave, quase rouca:

— Nem nos casamos ainda, e você já fala em divórcio como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— É que pensei em tudo com antecedência... — Admitiu Margarida, coçando de leve a cabeça. — Também considerei a possibilidade de você encontrar alguém de quem goste de verdade nesses três anos. Se isso acontecer, podemos adiantar o divórcio.

Vicente observou Margarida com um olhar inexpressivo, seus olhos escuros lembrando a frieza de uma obsidiana. Havia ali um brilho que tornava impossível desviar o olhar, mas igualmente difícil de sustentá-lo.

O corpo inteiro de Margarida ficou tenso. Por algum motivo, ela sentiu como se tivesse sido trespassada por aquele olhar. Um arrepio a percorreu, a fazendo hesitar por um instante, sem saber como reagir.

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