Enquanto a aula seguia a todo vapor, um toque de celular alto e repentino ecoou.
Uma voz masculina áspera cantava uma música antiga, quebrando o silêncio da sala.
A explicação de Renato parou na hora.
Sob o olhar de todos, ele tirou um celular antigo do bolso sem mudar a expressão e atendeu: — Alô? Tio, o que foi? Estou em aula.
Ele se virou, baixando o tom, mas todos ainda podiam ouvir.
— Você foi dançar com a vizinha de novo? Já te disse que ela é casada... O quê? O marido está internado? Mesmo assim, não... Tá bom, tá bom, vai lá dançar, mas cuidado com a coluna!
Foi uma conversa bem comum.
Isadora parou de girar a caneta, sentindo um contraste estranho.
Mas o que veio depois foi ainda mais bizarro.
Renato desligou o celular, pigarreou e escarrou no chão em direção ao lixo, depois ajeitou o cinto de couro preto, revelando um molho de chaves barulhento na cintura.
Chaves de casa, do carro, do escritório e até um cortador de unha.
Parecia totalmente um homem de meia-idade desleixado.
Isadora franziu a testa, olhando para o rosto dele que, apesar de tudo, era bonito. Ela ficou um pouco surpresa.
Valentina, vendo a reação dela, aproximou-se e sussurrou: — Ele é assim faz tempo. Desde que uma aluna o perseguiu loucamente no ano passado e ele quase perdeu o emprego. Depois disso, a imagem de galã sumiu e ele se veste assim de propósito.
Isadora arregalou levemente os olhos, compreendendo a situação.
No púlpito, Renato terminou de ajeitar as calças e bateu as mãos: — Onde estávamos? Ah, sim, limites de funções. Vamos continuar.
Ele voltou a escrever no quadro.
Seus movimentos eram fluidos e naturais, como se nada tivesse acontecido.
A luz do sol batia no quadro e a poeira flutuava nos raios de luz.
Isadora abaixou a cabeça e continuou anotando.

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