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Você sempre foi minha romance Capítulo 1

Renata

Eu queria fazer uma surpresa.

Era só isso.

Mesmo com tudo começando a dar errado na loja do meu pai, mesmo com as cobranças da Juraci e com as comparações da Patrícia… Ricardo sempre foi o meu porto seguro.

Ou eu pensava que era.

Depois do cursinho, parei na padaria, comprei o lanche que ele mais gostava e fui até sua casa.

Não avisei.

Ele vivia dizendo que amava quando eu aparecia de repente.

Abri o portão com a chave que ele mesmo me deu.

A casa estava silenciosa.

Silêncio demais.

Deixei a sacola na mesa da sala e só percebi depois:

Um salto alto feminino no chão.

Vermelho.

Não era meu.

O ar ficou pesado.

Mesmo assim, eu subi as escadas.

Devagar.

Cada degrau machucando mais que o anterior.

E então eu ouvi.

Um gemido.

Depois outro.

Um riso abafado.

Meu corpo inteiro gelou.

A mão tremia tanto que eu precisei segurar o corrimão.

A porta do quarto estava encostada.

Eu empurrei.

E foi ali que minha vida se dividiu entre antes e depois.

Ricardo estava na cama.

Com uma mulher por baixo dele.

E quando ela virou o rosto para ver quem entrou…

Era a Patrícia.

Minha meia-irmã.

A garota que cresceu comigo.

Que sentava ao meu lado no café da manhã.

Que dormia no quarto ao lado.

Que dizia ser “minha irmã”.

Ela sorriu.

Um sorriso lento… debochado… como se sempre tivesse esperado por esse momento.

Ricardo congelou, empurrou ela para o lado, tentou cobrir o corpo.

— Renata! Espera!

Eu não ouvi direito.

Era como se um zumbido estivesse dentro da minha cabeça.

— Você… com ela? minha voz saiu fina, estrangulada, como se não fosse minha.

Patrícia passou a mão no cabelo, preguiçosa.

— Ah, Renata… você chegou cedo hoje, né?

O mundo girou.

Ricardo veio na minha direção.

Eu recuei imediatamente.

— Não toca em mim.

— Deixa eu explicar, amor…

Eu ri.

Um riso curto e triste, o riso de alguém que acabou de perder tudo.

— Amor? eu disse quase sussurrando. Era isso que você fazia enquanto escolhia as alianças comigo?

Ninguém respondeu.

Eu saí.

Desci as escadas sem sentir as pernas.

Nem ouvi direito eles chamando meu nome.

Quando coloquei o pé na rua, percebi que tinha deixado o lanche na sala.

Eu tinha ido levar amor.

E voltei carregando uma ferida que mudaria tudo.

Eu cheguei em casa sem sentir minhas pernas.

A Juraci estava na sala, como sempre, folheando uma revista de moda enquanto fingia que cuidava da casa.

Ela levantou os olhos quando me viu entrar, com o rosto molhado de lágrimas.

— O que aconteceu, Renata? ela perguntou, mas não era preocupação… era curiosidade.

Eu não consegui responder.

Só sentei no sofá e chorei.

Meu pai desceu as escadas com aquela expressão cansada que ele carrega desde que a doença da minha mãe levou metade dele embora.

— Filha? O que está acontecendo?

Eu respirei fundo.

O peito doía.

Meu pai não disse nada.

Nada.

Foi naquele silêncio que a ficha caiu:

Eu estava completamente sozinha naquela casa.

Completamente sozinha no mundo.

Eu respirei fundo, levantei devagar e disse:

— Eu não vou casar com um homem que me traiu.

— Renata… meu pai tentou interromper.

— E não vou dividir mais nem o ar com gente que acha isso normal.

Subi para o meu quarto, arrumei minha mochila, peguei minhas roupas e meus documentos.

Quando desci, Juraci sorriu como se tivesse vencido.

Mas eu passei por ela como se não existisse.

Antes de sair pela porta, olhei para o meu pai.

— Eu vou me cuidar sozinha.

— Renata…

— Mas não se preocupe, pai. Eu não vou manchar seu negócio. Eu só… não quero mais ser parte disso.

— Pra onde você vai, menina?! o pai rosna, dando um passo à frente, o rosto ficando vermelho de raiva. — Deixa disso, sua ingrata! Você vai me fazer perder milhões!

Eu seguro a alça da mala com mais força, tentando manter a voz firme.

— Não vou fazer o senhor perder nada, pai. A Patrícia casa com o Ricardo. Acho que era isso que ela sempre quis desde o começo.

A Juraci dá um sorriso torto... Satisfeita.

— Pelo menos alguém aqui pensa na família ela dispara, olhando pra mim com desprezo. Se essa ingrata não quer, a minha filha casa com ele. Afinal… ela ergue o queixo. Ele desonrou a Patrícia também.

Mentira. E todos ali sabiam.

Mas ninguém falou nada.

O meu pai passa a mão pelos cabelos, desesperado.

— Você não está entendendo! ele esbraveja. Se você romper esse compromisso, eu perco o sócio, perco contratos, perco dinheiro! Minhas empresas não estão bem, e você sabe! Eu conto com você! Não pode fazer isso comigo!

Eu respiro fundo. O coração dói, mas a decisão não muda.

— Já fiz muito pelo senhor, pai. Mais do que devia. Agora vou fazer algo por mim.

Ele dá um passo, como se fosse arrancar a mala das minhas mãos.

— Pra onde você vai?!

Olho para ele pela última vez, sentindo a ferida abrir mais um pouco… mas também a liberdade chegando pela porta.

— Não se preocupa, pai. Vou pra casa da minha madrinha, por enquanto. Já liguei pra ela. Ela está me aguardando.

Silêncio.

A Juraci cruza os braços, vitoriosa.

E o meu pai… abaixa os ombros, derrotado.

— Adeus pai! Sai deixando uma lágrima rolar por meu rosto, por perceber que sou apenas uma peça substituível nesse tabuleiro.

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