OLIVIA
Eu havia percebido que alguma coisa acontecera, mesmo que meu marido tivesse se esforçado para esconder isso de mim. Aquela ligação o deixara assustado. Ou eram aquelas pessoas da organização que ele liderava naquele momento, ou tinha relação com meu pai e com aquele plano que continuava a me tirar o sono.
Ele voltara da “ida ao banheiro” distribuindo sorrisos, como se eu não enxergasse através deles e como se um sorriso pudesse apagar a tensão que permanecera em seus olhos.
— Aconteceu alguma coisa com meu pai, não foi?
Ele fizera uma pausa por um instante e retomara a comida como se nada estivesse em curso.
— Não falo com ele há alguns dias. Posso verificar, se você quiser.
Ele nunca fora um bom mentiroso, mas tentava naquele momento. Fingir que nada ocorria podia ser útil, porém não era suficiente para me enganar.
— Ele está ferido?
Outra vez, ele parara por um breve momento. Aquilo era o sinal dele e ele nem percebia.
— Como eu disse, não falo com ele.
Ele mentiu de novo. Eu não compreendia o que ele pensava que eu era. Eu era a esposa dele e conhecia cada uma de suas hesitações.
— Eu sou sua esposa, sabe, e aquele é meu pai que está ferido. Eu preciso pelo menos saber quão grave é e se tenho de ir aonde ele está para poder me despedir caso ele esteja morrendo.
— Ele não está morrendo. Ele está bem. Ele levou um tiro, mas não é sério.
Era o que eu precisava ouvir. Eu já não era uma criança e conseguia lidar com a verdade, por mais amarga que fosse.
— Ele está seguro agora? — Ele interrompeu a refeição e me encarou.
— Eu acredito que sim. Eu fiz tudo que pude para ajudar daqui.
Ele suspirou e pareceu preocupado. Ele escondia o que realmente sentia para me proteger, e eu reconhecia esse cuidado porque já o vira fazer o mesmo em outras tempestades.
— Meu pai não é tão fraco, e esta não é a primeira vez dele. Ele vai ficar bem.
Ele suspirou com alívio naquele momento.
— Sim, você tem razão. Luke faz isso há anos, ele é um especialista, se posso chamar assim. Ele vai saber lidar da melhor forma com a situação.
Eu percebi que ele começara a se sentir melhor, mas eu não ficara tranquila. Talvez não tivesse sido a primeira vez dele, porém todo mundo entendia quando a hora de ir se aproximava. Ele não enfrentava o mesmo tipo de criminosos a que estava acostumado. Aquelas pessoas operavam em outro nível, e todos nós sabíamos disso. Por causa disso, nós dois havíamos adoecido de preocupação com ele, como se um peso antigo tivesse se acomodado no peito e se recusasse a partir.
— Não estou com apetite, amor. Eu gostaria de voltar ao outro escritório e ver como posso ajudar mais seu pai. — Ele deveria ter dito isso no instante em que recebera a ligação. Eu não ia impedi-lo.
— Vá e faça o que precisa fazer. Vejo você em casa.
Ele se levantou, beijou minha testa e saiu. Eu permaneci junto à janela, observando o reflexo do céu no vidro enquanto imaginava em que estado meu pai se encontrava. Bateram à porta e, antes que eu dissesse qualquer coisa, a maçaneta girou e Nathan entrou.
— Olivia. — Ele parecera chocado ao me ver ali, e eu também me surpreendi.
Eu não sabia que ele trabalhava naquele lugar. Percebi que sim pela maneira como simplesmente entrara no escritório.


Eu liguei três vezes antes de ele atender.
— Olivia, qual é o problema? — Eu soltei o ar, aliviada por ouvir a voz dele.
Meu coração quase parara quando ele não atendeu nas primeiras tentativas. Uma lágrima solitária escapou do meu olho. Eu não tinha percebido o tamanho do meu medo até escutar a voz dele.
— Olivia, o que houve, fale comigo. As crianças estão bem, você precisa que eu volte para casa?
— Pai... — Eu não consegui dizer mais nada quando comecei a chorar.
Eu estava com medo e fingira ser forte o tempo todo, como se a coragem fosse suficiente para calar a angústia.
— O que foi, minha menina, fale comigo. — Ele soou preocupado. A voz veio suave, como se quisesse me envolver e me acalmar.

Eu chorei ainda mais. Eu não queria perder meu pai. Eu podia não demonstrar, mas ainda precisava dele na minha vida, e minhas crianças precisavam dele do mesmo jeito.
— Desculpa por não atender. Eu estava ocupado com uma coisa e o telefone estava no meu paletó. Mas eu estou bem, levei um tiro, sim, porém só de raspão.
Eu suspirei aliviada. A tensão que me atravessava desde a manhã cedeu um pouco, embora o receio continuasse ali, vigilante.
— Quando você volta para casa? Você está fora há dois meses e nós sentimos sua falta.
Eu queria ver com meus próprios olhos que ele estava bem. Antes que ele respondesse, eu ouvi um tiro e a ligação caiu.

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