Ela podia até não se lembrar dos rostos de imediato, mas ao ouvir aquela voz repulsiva, as memórias do seu casamento com Rafael Soares, três anos atrás, invadiram sua mente como uma enxurrada.
Lá estava o Sr. Salvador, apoiado em sua bengala, medindo-a de cima a baixo com um olhar avaliador, carregado de um desprezo que transbordava.
As palavras que ele usara naquele dia foram cruéis, pisoteando a dignidade de Helena na frente de todos, sem o menor pudor.
— Você realmente soube mirar alto, não é? Escolher logo o neto da família Soares no meio de tanta gente. Vai saber se tudo isso não foi premeditado.
— Alguém com um pingo de decência recuaria agora, em vez de se atirar nele de forma tão descarada.
— É raro ver uma garota chegar ao seu nível de baixeza. Como esperado de alguém que cresceu num orfanato. Faltou educação de pai e mãe.
— Cancelem qualquer cerimônia. Seria uma humilhação pública. Onde é que a família Soares enfiaria a cara?
As palavras venenosas do Sr. Salvador a atormentaram por muito tempo, afundando-a numa exaustão emocional profunda.
Naquela época, ela quis se defender.
Quis gritar que, antes da identidade de Rafael Soares ser revelada, ela não fazia ideia de quem ele era. Ela não era uma golpista calculista.
Não tinha sido ela quem o drogara. Ela não entendia como as coisas haviam chegado àquele ponto e se recusava a ser taxada de sem-vergonha.
Eles poderiam até cancelar o casamento, mas não precisavam humilhá-la daquele jeito.
Porém, no exato momento em que tentou se explicar, os anciãos viraram as costas e foram embora.
Os convidados, influenciados pelas palavras venenosas do conselho, marcaram-na com um estigma terrível.
As respostas afiadas de Helena, ditas num tom tão leve e carregado de desdém, eram como agulhas cravadas no ego dos velhos.
O Sr. Salvador cerrou os dentes com tanta força que seu maxilar estalou. Sua voz saiu baixa, tremendo de fúria:
— Helena Gomes, o que significa isso? Nós, os anciãos, viemos pessoalmente até aqui, e é com esse tom que você fala conosco?
— E como o senhor quer que eu fale? — rebateu Helena, erguendo uma sobrancelha. — Devo me jogar de joelhos, colar o rosto no chão, tremer de emoção e juntar as mãos em eterna gratidão por estarem aqui?
— Como ousa falar assim?! — explodiu o Sr. Salvador. — Helena Gomes, você perdeu completamente o juízo! Acha que só porque tem a família Teixeira por trás, pode pisar em todos nós? Pois grave bem: enquanto o divórcio não sair, você pertence à família Soares! E eu continuo sendo uma autoridade sobre você!
Diante da audácia e arrogância de Helena, o Sr. Salvador perdeu de vez o controle. Ele se levantou bruscamente, bateu a bengala na mesa de centro e apontou o dedo direto para o rosto dela.
— Melhore essa sua atitude e baixe a crista! Enquanto não assinar o divórcio, você tem a obrigação de abaixar a cabeça e ouvir o que os anciãos desta família têm a dizer!

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