O set de gravação estava iluminado de maneira artificial demais, como se o sol tivesse se multiplicado em refletores que caíam sobre Eloise. A atriz estava em meio às últimas tomadas de um comercial de batom, um daqueles lançamentos luxuosos, com embalagem dourada e promessa de sofisticação imediata. Ela deslizava a cor nos lábios diante da câmera, inclinando o rosto no ângulo exato, com um olhar que sugeria autoconfiança e desejo.
O diretor de publicidade ergueu a mão, satisfeito:
— Corta! Perfeito, Eloise. É isso.
A equipe soltou um breve aplauso, protocolar, mas ainda assim caloroso. Eloise sorriu, aliviada. Gostava do trabalho, mas sabia que comerciais pediam perfeição em detalhes quase imperceptíveis, o que tornava o processo exaustivo. Uma assistente correu até ela, colocando um sobretudo macio sobre seus ombros para cobrir o vestido decotado.
— Obrigada — murmurou, ajeitando a gola e caminhando para fora do estúdio.
O corredor parecia mais silencioso, um respiro depois da intensidade do set. E foi ali que ela o viu: Jason, encostado na parede, de olhos fechados como se estivesse tentando se recompor depois de uma batalha. O cabelo desgrenhado, a camisa amassada e olheiras profundas. Ele abriu os olhos ao perceber sua aproximação.
Eloise ergueu uma sobrancelha, surpresa.
— Nossa, você está com uma cara ótima. — A ironia foi inevitável. — Imagino que a despedida de solteiro deve ter rendido.
Jason soltou uma risada curta, quase cansada.
— Rendeu, sim. Apesar de o noivo e o Phillip terem fugido, como dois desertores.
Ela riu também.
— Eles são espertos. — comentou. — Mas aposto que vocês deram conta sem eles.
— De um jeito ou de outro. — Jason deu de ombros, mas havia um brilho de humor em seus olhos. Por um instante, ficaram apenas se olhando. — Gostei da cor do seu cabelo.
Eloise levou as mãos aos fios por instinto e sorriu, havia pintado de loiro acobreado para seu novo papel em uma série.
— Obrigada, eu também gostei.
— Quer tomar um café? — ele perguntou e sua voz estava um pouco hesitante.
Ela puxou o celular da bolsa, desbloqueando a tela. Uma mensagem piscava ali, lembrando-a de um compromisso.
— Eu adoraria, mas tenho que encontrar o Wolly.
— Quem é Wolly? — Jason franziu o cenho, claramente perdido.
Eloise soltou uma gargalhada leve e espontânea.
— Você bebeu tanto que esqueceu o amigo que te acompanhou? Walter White, lembra? Você passou a noite com ele e o Lucas.
Jason piscou algumas vezes, até que a memória pareceu clarear.
— Aaaah, Walter! Claro. — Ele sorriu, relaxando. — Aquele cara é legal.
— É, ele é. — Ela confirmou, ainda rindo.
Jason inclinou-se um pouco para frente, insistindo:
— De qualquer forma, é só um café rápido.
Houve uma pausa. Eloise olhou para ele de novo, para o jeito como esperava a resposta com uma certa ansiedade mal disfarçada. Algo em sua expressão fez com que ela respirasse fundo e cedesse.
— Está bem. — Guardou o celular de volta. — Mas tem que ser rápido.
Ele sorriu de canto, satisfeito, e a conduziu para fora.
— Quando?
— Dois dias depois do casamento do Eduardo e da Jinx.
Ele respirou fundo, apertando a borda da xícara entre os dedos.
— Imagino que uma série levará bastante tempo. Quanto tempo você vai ficar lá?
Eloise suspirou, mexendo distraída na colherzinha de metal.
— Alguns meses... talvez um ano.
O silêncio que caiu sobre a mesa foi desconfortável. Jason desviou o olhar, encarando a rua através da janela, mas a tensão em seus ombros era evidente.
O celular de Eloise vibrou sobre a mesa com uma nova mensagem de Walter.
Ela se levantou quase de imediato, pegando suas coisas apressadamente, vestiu o sobretudo e guardou o celular na bolsa.
— Tenho que ir, ele está me esperando. — Pegou a bolsa, ajeitou no ombro e sorriu, agradecendo: — Obrigada pelo café.
— De nada, até logo.
Saiu sem olhar para trás, sem perceber o modo como o sorriso de Jason desapareceu, como se tivesse sido arrancado do rosto. Ele ficou ali, imóvel por alguns segundos, encarando a porta que agora se fechava lentamente.
A mão dele ainda segurava a xícara de café, agora completamente esquecida. O olhar se perdeu na espuma que restava no fundo e amargo que sentia no fundo da garganta. E foi só então que murmurou, baixo, quase como se falasse apenas para si mesmo:
— Um ano?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido ex, obrigada pela traição