No dia seguinte, Lourdes acordou bem cedo.
Ela levantou e não viu Rafael, achando que ele já tinha ido para a empresa.
Assim que tirou o edredom e desceu da cama, a porta do quarto se abriu de repente. Rafael entrou, caminhou com passos largos até ela e disse: "Acordou."
Lourdes ficou surpresa por um instante e assentiu com a cabeça.
Rafael falou com voz suave: "Ótimo, levante-se para comer alguma coisa. Vou cuidar do curativo da sua mão."
Lourdes respondeu com um "ah" baixo e tornou a assentir.
Ela foi ao banheiro e, de repente, percebeu que a escova de dentes, já com pasta, estava apoiada sobre a borda do copo.
No passado, era ela quem fazia isso para Sérgio.
Mesmo que nunca tivessem morado juntos.
Às vezes, para que ele não perdesse reuniões importantes, Lourdes ia cedo até a casa dele, preparava o café da manhã e o acordava com carinho.
Ela deixava a pasta na escova, combinava o terno que ele usaria naquele dia, aprendia a cuidar dele, tentando ser uma namorada — e até uma noiva — exemplar.
Se os dois se amassem, tudo isso se chamaria carinho mútuo.
Do contrário, seria apenas um gesto para agradar a si mesma.
Claramente, para Sérgio, tudo o que ela fazia pertencia à segunda opção.
Lourdes pensou nisso com uma pontinha de autoironia, quando a voz preocupada de Rafael soou atrás dela: "O que houve? Sua mão está doendo?"
"Precisa de ajuda?" A voz de Rafael, sem querer, ficou tensa.
Lourdes olhou para ele e viu a preocupação em seu olhar. Ficou alguns segundos parada, mas logo balançou a cabeça, apertando os lábios: "Não."
Rafael a observou por alguns segundos e respondeu, com tom calmo: "Vou esperar por você lá embaixo."
Lourdes sorriu para ele: "Tá bom."
Depois de algum tempo juntos, parecia que a convivência entre eles estava cada vez mais natural.
Lourdes gostava desses dias tranquilos, cheios de simplicidade, com cara de uma vida real.
…
Desviou o olhar, pegou o pulso machucado dela e começou a tirar a atadura.
Por sorte, haviam cuidado do ferimento a tempo e a queimadura não tinha piorado. Bastava passar o remédio mais algumas vezes e ela estaria bem.
Rafael pegou a pomada e, com um cotonete, aplicou delicadamente sobre o dorso da mão dela. Recomendou com cuidado: "Hoje também evite molhar a mão. Assim vai sarar mais rápido."
Sua voz era suave, e os gestos, delicados e atentos. Quando seus dedos tocaram a pele de Lourdes, um leve desconforto tomou conta do coração dela.
"Pronto." Rafael soltou a mão dela e jogou o cotonete fora.
Lourdes olhou para a mão novamente enfaixada, sentindo uma pontada de vazio inexplicável.
"Entendido." Lourdes recolheu a mão, os dedos ainda sentindo o calor do toque que ele acabara de deixar.
Por algum motivo, os sentimentos dela por Rafael pareciam estar mudando.
Talvez fosse porque, além dos pais e do avô, era a primeira vez que sentia o cuidado e a atenção de outra pessoa.
Rafael olhou para ela, não disse nada, e acabou de tomar o café da manhã antes de sair para a empresa.

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