Alana fez uma pausa por alguns segundos, sustentando o olhar do marido, e então disse com firmeza:
— Não vou me lavar hoje.
— O que foi? — As mãos de Daniel não paravam de se mover enquanto ele organizava os itens de higiene. Suas pálpebras finas tremeram levemente quando ele se virou para encará-la. — Faz tão pouco tempo que nos separamos. Você está tímida ou simplesmente ainda não se acostumou com a minha presença?
O período de afastamento não havia sido necessariamente longo, mas também não fora curto. Pelo menos, já havia sido tempo suficiente para que Alana perdesse o hábito de compartilhar tamanha intimidade com ele.
O sofrimento e a angústia dilacerante que ela suportou sozinha durante esses meses haviam lhe ensinado uma dura lição. Ela não estava mais disposta a deixar a história mal resolvida envolvendo Marília sem uma conclusão clara e definitiva.
— Daniel, eu ainda não decidi se quero reatar o nosso casamento — pontuou ela, medindo as palavras.
Daniel franziu a testa imediatamente, e sua expressão tornou-se severa, quase rígida.
— Você ainda não acredita que nunca existiu nada entre mim e a Maríela, ou... você está alimentando outras ideias na sua cabeça?
As chamadas "outras ideias" eram uma clara alusão velada a Eduardo. Daniel também carregava seus próprios ressentimentos e pontos de orgulho que guardava rancor.
Alana surpreendeu-se ao notar que, pela primeira vez na história dos dois, eles estavam conseguindo se comunicar sem gritos, com uma calma quase melancólica. Ela refletiu por um instante antes de jogar as cartas na mesa:
— No dia em que fui ao seu escritório, eu vi a Maríela na cama da sua suíte particular. Ela estava recolhendo suas roupas íntimas, suas meias e organizando seus pertences pessoais como se fosse a dona do lugar.
Daniel franziu o cenho repentinamente, uma onda nítida de inquietude cruzando suas feições. Na época em que as brigas com Alana se intensificaram, ele passou a morar quase integralmente na sede da holding. Ele se recordava de que Maríela sempre solicitava autorização para que a equipe de limpeza organizasse a suíte da presidência, mas ele, imerso no trabalho, jamais dera muita atenção aos detalhes da rotina.
— Isso é impossível — retrucou ele, a voz firme, mas visivelmente perturbada.
Sem perder tempo, Daniel puxou o celular do bolso e disparou uma ordem expressa para o assistente, exigindo que ele fizesse um levantamento minucioso das imagens das câmeras de segurança de seu andar executivo nos últimos meses. Como o episódio específico havia ocorrido no dia em que Alana visitara a empresa, o assistente não demorou a localizar os arquivos. Em menos de cinco minutos, uma compilação geral em alta definição foi enviada para o aparelho do CEO.
Daniel deu o play, assistindo ao circuito ao lado de Alana. À medida que o vídeo avançava, as feições do homem tornavam-se cada vez mais sombrias.
Maríela havia planejado tudo meticulosamente. Ela entrara na suíte carregando os próprios pertences escondidos e, aproveitando-se do momento exato em que Alana se aproximava da antessala, espalhou as peças íntimas de forma calculada pela cama para criar uma cena irrefutável de adultério. Assim que Alana deixou o prédio em prantos, Maríela recolheu tudo rapidamente antes que Daniel saísse de sua reunião de diretoria.
Alana assistiu aos pequenos gestos calculados da rival na tela do celular e sentiu um estalo de lucidez. Ela se lembrava perfeitamente de como Maríela a tratava com arrogância e altivez naqueles dias, agindo como se Alana fosse apenas uma intrusa na família Craig. Em retrospectiva, ficava claro que Maríela sabia exatamente o peso do status de Alana e agira de forma premeditada para destruí-la.
As artimanhas e jogos psicológicos de bastidores eram o maior ponto cego de Daniel. Ele, que estava acostumado a prever os movimentos mais complexos e agressivos do mercado financeiro mundial, fora fragilizado justamente por uma rasteira doméstica.
— Eu nunca imaginei que a Maríela alimentasse esse tipo de sentimento ou obsessão por mim — admitiu Daniel, a mandíbula travada. — Por isso, nunca tomei nenhuma precaução contra ela.
Alana contraiu os lábios, o olhar tingido de uma ironia dolorosa:
— Então, aquelas fotos que circularam na mídia, mostrando a Maríela entrando na sua suíte de hotel durante a viagem de negócios... também foram uma armação dela? Você realmente não teve participação em nada?
— Claro que não! — declarou Daniel com naturalidade e uma altivez quase ultrajada. — Por acaso eu tenho cara de homem que faz as coisas às escondidas, Alana? Se eu quisesse estar com outra mulher, quem neste mundo teria poder para me impedir de conseguir o que quero? É essa a imagem que você tem do meu caráter?
A resposta dele foi desferida com tanta convicção e propriedade que fez com que toda a dor e o luto que Alana carregara nos últimos meses parecessem, de certa forma, uma piada de mau gosto. Diante daquela postura imperial, parecia que a culpa pelo colapso não era dele, mas dela, por não conhecê-lo o suficiente para discernir a verdade.
Contudo, aquele não era o único mal-entendido que os havia sangrado. Como as feridas já haviam sido abertas, Alana decidiu expor o restante do que estava engasgado.
— Você nunca me deu a menor segurança emocional, Daniel! Você me tratava como se eu fosse uma mera funcionária ou um adereço da sua casa! Quando eu tentei questionar você sobre o seu envolvimento com a Marília, se você tivesse respondido com essa mesma clareza e firmeza que está usando agora, em vez de me atacar e me repelir para ferir o meu orgulho, como eu teria entendido tudo errado?

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