(Ponto de Vista de Ethan)
— Não. Lily já foi enterrada há muito tempo… — Minha voz saiu rouca, quase irreconhecível até mesmo para mim.
As palavras pairaram no ar estéril do Abrigo Médico do Bando Crista de Prata, e cada sílaba pareceu cortar minha garganta como vidro quebrado.
Ao lado, a mão de Victoria apertou a minha com mais força, e seus olhos azuis se arregalaram, demonstrando o que parecia ser choque.
— Cinco anos… — Continuei, sentindo a confissão dilacerar minha alma. — Ela se foi há cinco anos, e eu não soube.
O peso dessa verdade me esmagava. Minha filha havia morrido, e eu não estivera presente, não soubera, não a pranteara.
Foi então que as lembranças invadiram minha mente como fragmentos dolorosos e afiados de uma vida que mal reconhecia: o rostinho de Lily me olhando de baixo para cima, com seus olhos esmeralda, tão semelhantes aos da mãe, irradiando esperança sempre que eu entrava em um cômodo.
Também lembrei de como ela se aproximava com cautela, sempre atenta a não me desagradar, e de como sua vozinha tremia levemente ao me cumprimentar.
— Olá, papai. — Ela dizia, ficando ereta, tentando parecer digna da minha atenção.
“E o que eu fazia? Mal a notava, pois estava sempre ocupado demais com os assuntos da matilha,e demasiadamente envolvido com Victoria e Emma.
Emma…” O simples pensamento na filha de Victoria me trouxe uma nova onda de culpa. “Quantas vezes derramei afeto sobre ela enquanto minha própria filha assistia das sombras?”
Recordei um dia específico nos Jardins Imperiais, quando ambas estavam presentes. Emma correu até mim, atirando-se em meus braços com a confiança de que eu a seguraria, e eu a ergui no ar, rindo ao som de seus gritos de alegria.
“E Lily? Minha própria filha permaneceu afastada, observando com um brilho de anseio nos olhos…”
Quando Emma finalmente me soltou, Lily se aproximou, hesitante.
— Papai. — Disse ela, suavemente. — Quer ver o desenho que eu fiz?
Eu o olhei por um instante, murmurei algo sobre estar bonito e voltei minha atenção para Emma, que exigia que eu visse sua dança.
E essa lembrança me provocou enjoo... “Como pude ser tão cego? Tão cruel?”
— Eu falhei com ela. — Murmurei, mais para mim mesmo do que para Victoria. — Falhei com minha filha de todas as formas possíveis.
Pensei na noite que acabara de passar no Cemitério Luar Sagrado, ajoelhado diante do túmulo de pedra da lua de Lily até o amanhecer. Meus joelhos doíam contra o chão gelado, mas eu acolhi aquela dor, pois não se comparava ao que Lily deve ter sentido, assistindo seu pai amar outra criança enquanto a ignorava.
— Os curandeiros disseram que a condição da Emma estava piorando… — Expliquei. — Por isso, organizei aquela celebração de aniversário porque temia que fosse sua última. No entanto, jamais imaginei que quem não teria outro aniversário seria Lily.
A ironia era insuportável... Eu havia dedicado tanta atenção a Emma, temendo por sua saúde, que nem percebi que minha própria filha era quem realmente estava em perigo.
Foi nesse momento que a voz de Victoria cortou meus pensamentos:
— Eu me sinto tão culpada… — Declarou ela, com lágrimas escorrendo pelo rosto. — Se eu não tivesse ligado naquele dia, implorando para que você aparecesse porque Emma estava abalada... Se eu não tivesse afastado você da promessa que fez à Lily...
Balancei a cabeça, tentando afastar qualquer culpa dela, pois sabia que essa culpa era exclusivamente minha.
— Você só estava preocupada com a Emma. — Disse. — Não posso culpá-la por isso. A culpa é inteiramente minha. Fui eu quem escolheu quebrar minha promessa à Lily.
Diante da minha resposta, Victoria se aninhou em meu peito, chorando contra ele, e eu a abracei, mas minha mente estava distante, com a garotinha que morrera, esperando que o pai cumprisse sua promessa.
Na manhã seguinte, com os ferimentos e a febre persistente devido ao ataque de Olivia, voltei ao Cemitério Luar Sagrado. Cada movimento era um grito de dor no meu corpo, mas segui em frente, ignorando o sofrimento.
Levei comigo os doces favoritos de Lily: bolinhos de Fruta da Lua, frutas da floresta… E pequenos brinquedos de madeira entalhada. Eram coisas que notei que ela gostava ao assistir, repetidas vezes, às gravações dos Jardins Imperiais desde que soube da sua morte.

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