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O Coroa dono do Morro romance Capítulo 6

Fiquei tentando desaparecer. Na Rocinha, isso era quase uma piada. Baixei a cabeça, mudei caminhos, evitei gente. Mas como ficar invisível em um lugar onde o Coroa via e sabia de tudo? Onde cada passo era observado, cada ausência comentada?

Foram dois dias tentando me convencer de que aquele beijo não significava nada. Dois dias repetindo isso como um mantra inútil.

Fui à faculdade como uma morta-viva. Eu sentava na sala, olhava para frente, mas não estava ali. As palavras entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Meu corpo respondia no automático, enquanto minha mente voltava, insistente, para o galpão.

— Alice, você tá estranha — Sara dizia, sem parar. — Você não fala, não briga, não ri… o que aconteceu?

— Nada — eu mentia, de novo. — Só cansaço.

Mas no fundo, eu sabia. Sabia desde o momento em que empurrei o peito dele e saí correndo.

Aquilo tinha significado.

As mãos ainda tremiam quando eu lembrava do toque dele.

O coração acelerava quando a voz baixa surgia na minha memória, firme demais para ser esquecida:

vai acontecer de novo.

E o pior era admitir — mesmo que só para mim — que uma parte minha queria que acontecesse.

No terceiro dia, quando a moto parou ao meu lado e o homem do Coroa disse que o chefe queria falar comigo, eu não me surpreendi. Senti medo, sim. Mas também uma estranha sensação de destino se cumprindo.

A subida até o galpão parecia mais longa. O coração batia tão forte que chegava a doer.

Quando entrei , encontrei o Coroa sentado, revisando papéis. Ele levantou o olhar devagar. O mesmo olhar que lia minha alma.

— Senta — ele disse.

Eu só obedeci.

— Você andou pensando no que aconteceu? — ele perguntou, direto.

Eu engoliu seco.

— Pensei… que não devia ter acontecido.

Ele sorriu de canto.

Um sorriso perigoso.

— Então por que veio tão rápido quando eu mandei chamar?

Eu abri a boca, mas nenhuma resposta saiu.

Ele levantou, caminhou até a mim , devagar, como sempre. E quando ficou perto demais, eu prendi a respiração.

— Eu quero que você trabalhe para mim — ele disse.

Eu pisquei, surpresa.

— T-trabalhar? Eu? No quê?

— Preciso de alguém inteligente, rápida, e que não tenha medo de olhar na minha cara.

Eu arregalei os olhos.

— Mas eu… eu estudo. Eu quero a faculdade…e já trabalho na lojinha da dona Eva

— Eu sei — ele respondeu. — E eu não vou atrapalhar seu estudo,Tambem sei que você não ganha bem

Pela primeira vez, vi algo que parecia quase… cuidado da parte dele .

— Eu te pago bem. Você não vai mais depender de favor de ninguém naquela casa.

Eu senti meu peito apertar.

Era tentador.

Perigoso demais.

Será que foi mesmo confusão… ou ele já me observava antes?

Desde quando?

A ideia me arrepiou inteira.

Passei a mão pelos cabelos, andando de um lado para o outro no quarto apertado. O coração acelerado, a respiração curta. Eu estava enlouquecendo. Sentia como se as paredes estivessem se fechando, como se cada pensamento me empurrasse mais para um canto sem saída.

Será que eu posso dizer não pra ele?

A pergunta doeu mais do que eu esperava.

Na Rocinha, “não” nem sempre é uma resposta. Às vezes é um desafio. Às vezes é uma sentença.

Será que ainda dá tempo de fugir?

Soltei um riso fraco, quase histérico. Fugir pra onde? Com o quê? Com quem? Eu não tinha dinheiro, não tinha família, não tinha porto seguro. O mundo lá fora não era menos cruel do que o de dentro do morro — só fingia melhor.

Sentei na cama, sentindo o peso de tudo cair de uma vez.

Eu odiava o que ele representava.

Mas não conseguia negar o que ele despertava.

E isso me apavorava.

Porque, no fundo, eu sabia: não era só sobre aceitar ou recusar um trabalho. Era sobre encarar uma verdade que eu passei a vida inteira evitando.

O mundo não era dividido entre bons e maus.

Ele era feito de zonas cinzentas.

E eu… eu estava parada bem no meio delas, tentando decidir se ainda existia um caminho que não me custasse a alma.

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