A chuva castigava a cidade de Maple North City. A tempestade transformava as ruas em espelhos d’água, refletindo os faróis dos carros como vultos desfocados. Dante Owen estava preso com o trânsito a sua frente e bastante impaciente com a situação. Se a reunião tivesse acabado no horário, poderia ter saído antes da chuva.
Seu celular vibrou no console.
Dante hesitou antes de atender.
- Senhor Owen, disse a governanta, a voz baixa, controlada, mas tensa. - A babá pediu demissão.
Ele fechou os olhos por um breve instante.
- Outra? - Murmurou.
- Sim. E… Olie está chorando muito. Teve mais um episódio de pânico noturno. Não conseguiu se acalmar sem o senhor.
O maxilar de Dante se contraiu.
- Ela está bem agora?
- Está exausta, respondeu a governanta. - Mas continua acordada. Chamando pelo pai.
Ele respirou fundo, sentindo o peso familiar da culpa pressionar o peito. Olie havia perdido a mãe assim que veio ao mundo, e Dante se cobrava para ser um pai presente.
- Estou a caminho - disse apenas, encerrando a ligação.
A poucos quarteirões dali, Melissa Cross enfrentava a mesma tempestade, mas sem carro, sem abrigo e sem emprego. Ainda assim, havia esperança. Mesmo depois de tantos nãos.
Ela apertou a mochila contra o peito enquanto corria pela avenida iluminada apenas pelos faróis borrados dos carros. Minutos antes, havia perdido a sua carteira com os documentos e o pouco dinheiro que lhe restava. Tinha caído no chão, no escuro, e a chuva tornou impossível encontrá-la.
Melissa estava exausta. Passou por várias entrevistas naquele dia e, mais uma vez, ouviu o educado e vazio:
“Qualquer coisa, entraremos em contato. ”
Ela já sabia o que aquilo significava.
Seus pés estavam encharcados, o corpo cansado e o coração apertado ao pensar nos pais tão longe, tão frágeis… especialmente o pai, preso a exames constantes, remédios e à fila interminável para um transplante de coração.
Melissa respirou fundo, tentando afastar o nó na garganta.
Ela não podia voltar para casa sem nada.
Não podia preocupar ninguém.
Precisava dar certo sua tentativa na cidade grande.
A chuva continuava a cair pesada e constante. Os carros aceleravam, e os faróis viravam manchas líquidas refletidas no asfalto.
Melissa apressou o passo ao ver o sinal mudar. Atravessou a rua com pressa, sentindo o frio queimar a pele, o vento empurrar os cabelos molhados contra o rosto.
No mesmo instante, o trânsito à frente de Dante finalmente cedeu, e ele aproveitou a brecha, apertando o pé no acelerador. Calculava mentalmente quanto tempo ainda levaria até chegar em casa. Já era tarde, e ele havia falhado mais uma vez com Olie.
O celular vibrou novamente no console. Uma mensagem curta da governanta:
“Ela ainda está chorando.”
Dante desviou o olhar por um único segundo.
Foi o suficiente.
Um vulto surgiu no meio da pista.
Ele pisou no freio com força, sentindo o carro perder aderência no asfalto molhado. O barulho das rodas tentando frear não minimizou o impacto.
Foi Seco.
Inegável.
Por um breve instante, o mundo pareceu estar em pausa. O som da chuva ficou distante, abafado. Um silêncio estranho tomou conta de tudo.
Dante desligou o motor, respirou fundo e saiu do carro.
A jovem estava caída sob a luz do poste, imóvel. A água escorria ao redor do corpo, misturando-se a um fio de sangue que descia de sua têmpora com constância.
Ele se aproximou com cuidado e ajoelhou-se ao lado dela.
Ela respirava.
O alívio dele foi imediato.
- Consegue me ouvir? - perguntou, a voz firme, apesar do nó no peito.
Os olhos dela se abriram por um instante, confusos e sem foco. Ouviu a voz de Dante distante e em sons desconexos.
Ela sentiu frio.
Depois dor.
Uma dor espalhada, como se o corpo não fosse mais inteiro.
A sensação súbita de que não deveria estar ali.
De que estava atrasada na própria vida.
O pensamento não se completou.
O escuro veio antes. Melissa apagou.
Dante sentiu o coração acelerar. Deu tapinhas em seu rosto com cuidado, chamando-a com voz firme.
- Moça, não, não apague. Não agora. Aguenta mais um pouco.
Ligou para a emergência com as mãos trêmulas, o pensamento desordenado, a respiração curta. Ainda assim, forneceu as informações necessárias.
Permaneceu ali até a ambulância chegar, tomado por uma sensação sufocante de que aquilo não deveria ter acontecido.
- Eu sou O negativo. Meu sangue é compatível. Eu faço a doação!
O médico o olhou com mais atenção.
- O senhor tem certeza de que é O negativo?
- Tenho.
Dante já retirava o paletó molhado, jogando-o sobre a cadeira.
- Se for compatível, isso pode ser decisivo, disse o médico. - Vamos economizar um tempo precioso.
- Eu sou O negativo. Tenho certeza.
O médico respirou fundo antes de continuar.
- O problema, Dante, é que vamos precisar de mais de uma bolsa de sangue… e você só pode doar uma com segurança.
Dante sustentou o olhar dele.
- Que tipo de complicações eu poderia ter?
- Tontura, vertigem, vômito, desmaios… e, em casos mais graves, um choque hipovolêmico. Sua vida também pode ficar em risco.
Dante passou a mão pelo rosto, tenso, mas firme.
- Doutor… eu tenho 1,85, massa muscular significativa, peso… eu aguento!
Dante respirou fundo, o olhar firme.
- Ela não vai aguentar.
Um segundo de silêncio.
- Tire de mim o que for preciso.
O médico hesitou por um segundo.
Então tomou sua decisão.
- Enfermeira, chamou, com firmeza. - Prepare o senhor Owen para doação. Retire 800 ml de sangue.
A enfermeira assentiu, já se movendo.
- E preparem a sala de emergência, acrescentou ele. - É possível que tenhamos dois pacientes esta noite.
Dante engoliu seco.
Mas não recuou.

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