Capítulo 3 — Olhos Que Congelam
Emma Anderson
O abraço de Luca era quente, familiar, impossível.
Dois anos se dissolveram naquele instante. O cheiro de xampu infantil, o jeito como ele apertava meu pescoço como se eu fosse a sua única âncora em um oceano revolto… tudo era exatamente igual àquele dia em que o arranquei das chamas.
Mas o momento durou menos que um piscar de olhos. Uma voz cortou o ar como uma lâmina de aço:
— Quem é você? E de onde conhece meu filho?
Levantei os olhos devagar. O homem era alto, de ombros largos sob um terno cinza impecável que parecia caro demais para existir no mesmo planeta que eu. Cabelos loiros perfeitamente penteados, olhos azuis tão pálidos que pareciam feitos de gelo rachado.
Damien Knight. Eu não precisei de um crachá para saber quem ele era; eu o reconhecia das revistas que via na lanchonete, mas vê-lo de perto era diferente. Ele exalava um poder que sufocava. O nome dele estava gravado em cada placa e em cada porta de vidro deste lugar, mas o dono do nome era muito mais aterrorizante do que o logotipo da empresa.
Ele olhava para mim como se eu fosse uma praga, uma ameaça que precisava ser erradicada.
Luca continuava grudado em mim, os bracinhos firmes ao redor do meu pescoço. Ele não soltava. Não dizia nada. Apenas tremia levemente, o rosto enterrado no meu ombro, respirando rápido, num pânico silencioso de que eu desaparecesse de novo no meio da fumaça.
Damien deu um passo à frente. O corredor inteiro pareceu encolher sob sua presença.
— Responda. Quem é você?
Marina interveio rápido, a voz oscilando entre o profissionalismo e o nervosismo:
— Senhor Knight, esta é Emma Anderson. Ela veio para a entrevista da vaga de limpeza noturna. Já estávamos finalizando o processo no RH. Ela estava de saída agora.
Os olhos dele nem sequer desviaram para Marina. Continuavam cravados em mim, analisando a forma como o filho se recusava a me soltar.
Ao fundo, ouvi o sussurro de uma das funcionárias, um chiado de surpresa que cortou o silêncio do corredor: "Meu Deus, o menino nunca deixa ninguém chegar perto... ele não fala com ninguém desde o acidente".
Senti um arrepio na nuca. Olhei para o topo da cabeça loira de Luca, sem entender o peso daquele abraço, até que a voz de Damien Knight me trouxe de volta, carregada de uma desconfiança perigosa.
— Meu filho não permite que estranhos o toquem. Nunca — ele sentenciou, a voz baixa, mas vibrando de uma autoridade que exigia uma explicação impossível. — Então, eu vou perguntar mais uma vez: por que ele está se agarrando a você como se a conhecesse a vida inteira?
Luca ergueu o rosto devagar. Seus olhos verdes, inundados de lágrimas, encontraram os meus. Ele não falou. Ele nunca falava, pelo que eu lembrava das notícias que li nos meses seguintes ao acidente. Mas ele esticou uma mãozinha trêmula e tocou meu rosto, a ponta dos dedos confirmando que eu era carne e osso, não um fantasma.
Damien franziu a testa. Por um milésimo de segundo, a máscara de frieza dele vacilou, dando lugar a uma confusão sombria.
— Luca. Solte-a. Agora.
O menino balançou a cabeça em uma negação desesperada, os dedinhos cravando na minha blusa barata. Um som baixo escapou dele, um choramingo rouco que me partiu o coração.
— Eu disse para soltar — a voz de Damien veio como um trovão contido. Ele parou ao meu lado e, com uma firmeza inquestionável, arrancou o menino do meu colo. — Agora pegue a sua criança — ele sibilou, lançando um olhar de desprezo para Ellie. — Saia da minha empresa. E não ouse voltar.
O tom dele era de uma crueldade gelada. Senti meu coração errar a batida e a mãozinha da minha irmã apertar a minha com uma força de quem sente o perigo.
— Senhor Knight, por favor… — Marina tentou interceder. — Emma precisa desesperadamente do emprego. A irmã dela está doente, ela não tinha com quem deixar a menina. Foi um dia terrível para ela.
Damien olhou para Ellie, que se encolhia atrás das minhas pernas, os olhos arregalados de puro terror. Depois, o olhar azul voltou para mim, desprovido de qualquer rastro de empatia.
— Meu filho não interage com estranhos. Nunca — ele disse, a voz baixa, controlada, mas carregada de uma ameaça implícita. — Se você está usando a fragilidade dele para tentar algo nesta empresa, saiba que é um erro fatal. Saia. Agora. Antes que eu perca a minha paciência.
Mas então, os olhos de Luca encontraram os meus. Ele se debateu levemente, tentando alcançar o ar entre nós. Sem som. Apenas um adeus silencioso e devastador.
As portas se fecharam. O elevador desceu.
Lá fora, o ar cortante da rua me acertou como um tapa na cara. O céu continuava cinzento, o trânsito barulhento, a cidade indiferente à minha ruína. Eu me sentia minúscula. Humilhada. Derrotada.
Caminhei alguns metros, cada passo pesando uma tonelada com Ellie no colo. Minhas pernas falharam. Encontrei uma mureta baixa no jardim em frente ao prédio, um espaço de verde artificial cercado por árvores magras. Sentei Ellie ali com cuidado e tentei tirar a garrafinha d’água da bolsa, minhas mãos tremendo tanto que mal conseguia abrir o zíper.
— Toma um pouquinho, princesa… vai ajudar…
Ela tentou beber, mas os lábios mal se moviam. A pele da testa ardia sob meus dedos. O corpinho estava mole, pendendo sem resistência para o lado.
— Ellie?
Toquei seu rosto. Ela estava em chamas. Seus olhos se reviraram e fecharam devagar.
— Ellie!
O corpinho desabou para frente. Eu a segurei antes que ela atingisse o chão. O peso dela era nada, mas naquele momento, parecia o peso de todo o mundo.
— Não… não, por favor… acorda!
O pânico explodiu no meu peito como uma granada. Gritei por ajuda, mas a voz saiu rouca, quebrada, morrendo no barulho dos carros. As pessoas passavam apressadas, os olhos fixos em seus celulares, sem parar. O mundo girava em câmera lenta, perdendo a cor.
Ellie não se mexia.

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