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POV/ CLARA
O dia 5 de janeiro amanheceu cinzento, combinando com o peso que eu sentia no estômago. Eu não conseguia mais ignorar os sinais. Pesquisei na internet até meus olhos arderem e, segundo os relatos, o enjoo persistente e os desejos bizarros indicavam gravidez. Mas eu me recusava a acreditar. "É o estresse do casamento", eu repetia para o espelho. "É a comida das festas, eu comi demais no Natal, devo estar apenas inchada". Eu queria acreditar que meu corpo estava apenas reagindo à ansiedade de me tornar a Sra. Cavallieri.
Aproveitei uma saída rápida para resolver pendências do casamento — a desculpa perfeita para despistar os seguranças — e pedi para parar em uma farmácia de bairro, longe da nossa rota habitual. Comprei o teste escondida sob óculos escuros, sentindo o coração martelar contra as costelas como um pássaro enjaulado. No banheiro de um café próximo, esperei os minutos mais longos da minha vida.
Quando os dois riscos vermelhos apareceram, o mundo parou. O positivo estava ali, claro e inquestionável. Mas eu precisava de certezas médicas. No dia 9 de janeiro, eu estava em uma clínica discreta, o gel gelado no meu ventre sendo o único contato real que eu sentia.
— Você está grávida, Clara — a médica disse, os olhos fixos no monitor. — E não é de agora. Pelas medidas, você está com quase 13 semanas.
— Treze semanas? — Minha voz falhou, um sussurro quebrado no consultório silencioso. — Mas doutora, isso é impossível! Minha menstruação desceu em novembro... e em dezembro, na Itália, eu achei que estava apenas inchada pelas festas, sabe? Achei que era a comida pesada, a ansiedade de noiva que estava me fazendo comer mais. Eu me sentia maior, mas achei que era apenas... gordura.
A médica me olhou com compreensão, ajustando o transdutor sobre meu ventre.
— Às vezes acontece, Clara. Algumas mulheres apresentam o que chamamos de sangramento de escape hormonal que mimetiza o ciclo, especialmente sob estresse extremo ou mudanças hormonais intensas. Isso explica por que os sintomas demoraram a se tornar óbvios para você. Você engravidou em meados de outubro.
— Tem mais uma coisa — a médica continuou, virando o monitor para mim. — São dois sacos gestacionais. Você está esperando gêmeos.
O ar sumiu dos meus pulmões. A voz do Adrian ecoou na minha mente, o tom possessivo e autoritário de quando brincávamos na piscina: “Eu quero um casal, ou quem sabe dois meninos, gêmeos...”
Senti um arrepio percorrer minha espinha. Aquele homem não tinha apenas um império; ele tinha uma palavra que o destino parecia obrigado a obedecer. Era como se a vontade de Adrian Moretti fosse tão absoluta que o próprio universo se curvasse para atendê-lo antes mesmo de ele saber que o milagre já estava acontecendo.
Saí da clínica em transe. Eu estava carregando os herdeiros do Imperador. Dez dias para o casamento. Dez dias para processar que eu não era mais apenas a noiva; eu era o santuário da linhagem dele. Guardei tudo em uma caixinha de veludo: o teste, os sapatinhos e a ultrassom com os dois pontinhos que mudariam nossas vidas para sempre.

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