POV/ CLARA
Mais tarde, quando a casa finalmente mergulhou naquele silêncio que só as mansões de Porto Alegre possuem, as visitas foram embora e as meninas dormiram o sono profundo da inocência. Eu escapei para a varanda, buscando o ar gélido da noite para acalmar os meus nervos. O céu parecia estranhamente limpo, as estrelas como diamantes frios observando meu segredo. Adrian surgiu logo atrás, como uma sombra predadora e protetora. Antes mesmo que eu sentisse seu toque, seu cheiro inconfundível de sândalo e poder me envolveu, fazendo meu corpo reagir instantaneamente.
— O que essa cabecinha está planejando agora, Clara? — A voz dele vibrou contra a minha nuca, um rosnado baixo que me fez estremecer.
— No meu pai. Como ele está? — perguntei, o pensamento voando para as paredes de concreto da penitenciária.
— Seu pai está bem — ele respondeu, os braços circulando minha cintura com uma força que dizia que eu não tinha para onde fugir. — Ele está seguro, fisicamente intacto. Mas o psicológico dele... bom, o sistema mói os homens, Clara. Ele vai precisar de tempo para voltar a ser o que era.
— Obrigada por isso... — sussurrei, girando em seus braços e depositando um beijo devoto em sua mão, sentindo a textura da pele dele contra meus lábios.
— Não me agradeça. Eu garanti isso pessoalmente. Ninguém toca no que pertence à minha mulher — ele reafirmou, os olhos escuros brilhando com uma promessa perigosa.
Os dias que se seguiram foram uma névoa de euforia e exaustão. Adrian estava obcecado pela nossa viagem à Itália em dezembro. Era mais do que uma Lua de Mel; era uma campanha militar de luxo. Ele passava horas em reuniões sombrias, mas bastava eu entrar na sala para que ele parasse tudo. Ele me mostrava fotos de vilas seculares na Toscana, hotéis em Milão onde as paredes exalavam opulência. Ele estava planejando a conquista de um novo território, e eu era a bandeira de posse que ele queria fincar no coração da Europa.
Estávamos na área da piscina no fim de tarde. O sol morria no horizonte, sangrando um laranja profundo sobre as águas paradas. Adrian bebia um vinho tinto encorpado, tão escuro quanto sangue, enquanto eu, em um momento de rebeldia infantil, tentava terminar um pedaço do bolo que havia sobrado da festa.
— Não coma isso, Clara. Já passou da hora. Está velho — ele avisou, a voz autoritária, mas eu ignorei. Eu precisava de algo doce, uma fuga para a ansiedade que roía meu estômago.
De repente, a atmosfera mudou. O ar pareceu ficar espesso, sufocante. O aroma do vinho, que antes era inebriante, subiu às minhas narinas como um soco brutal de ferro. Meu estômago deu um solavanco violento, uma reviravolta que me deixou sem ar.
— Clara? — O tom dele mudou instantaneamente. Adrian abaixou a taça, os olhos fixos em mim com aquela atenção clínica e assustadora, notando a palidez súbita que tomou meu rosto e o suor frio na minha testa.
Fui até a cozinha com as pernas trêmulas. Engoli o antiemético com um gole de água gelada, sentindo a pílula descer como uma âncora em um mar revolto. Eu não podia deixar que ele entrasse em modo de controle total; precisávamos da Itália, precisávamos daquela fuga.
Os preparativos eram frenéticos. Adrian já havia despachado malas inteiras em um jato particular roupas de grife que ele escolheu pessoalmente, peça por peça, para vestir o corpo dele. Ele queria que, ao pisarmos em solo italiano, eu fosse a personificação da perfeição.
— As meninas deviam ir conosco — comentei mais tarde, observando-o conferir documentos de viagem com aquela expressão de soldado prestes a ir para a guerra.
— Não — ele disse, sem sequer desviar os olhos dos papéis, a voz final e cortante. — Elas ficarão seguras na casa da Aurora. Eu quero você sozinha, Clara. Sem interrupções, sem distrações. O foco dessa Lua de Mel é a minha posse sobre você. Na Itália, eu vou te mostrar que não existe mundo lá fora. Existe apenas eu e o que eu vou fazer com você.
Ele levantou o olhar, e o que vi ali não era preocupação com o meu enjoo, mas uma fome renovada. Eu senti um arrepio percorrer minha espinha, uma mistura de medo e desejo que nenhum remédio seria capaz de curar.
FIM/POV CLARA

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