O silêncio que se seguiu à partida dos homens era mais ensurdecedor que qualquer grito. A música havia parado. As luzes das lanternas agora pareciam fracas, inadequadas, iluminando um cenário de pesadelo. Olívia, com um braço firme em volta de Carla, guiou-a juntamente com Valentina — que cambaleava como um fantasma — para dentro da mansão, para o escritório de Ian, longe dos olhares dos poucos funcionários que começavam, confusos, a desmontar a festa.
Valentina desabou em uma poltrona de couro, seu corpo elegante reduzido a um tremor contínuo. Ela encarava as mãos vazias, como se ainda pudesse sentir o peso da mãozinha de Luna dentro da sua. Carla ficou em pé, apoiada na mesa de canto, os braços cruzados, tentando processar o furacão de emoções.
A revelação de Matheus ainda queimava em sua mente, uma ferida fresca e confusa. Ex-mulher. Filha. Duas realidades massivas que ele guardara dela. A raiva era uma coisa, um fogo justo e compreensível. Mas por baixo dela, uma dor mais profunda latejava: a sensação de que, depois de tudo que compartilharam, ele ainda a mantinha do lado de fora do seu núcleo mais vulnerável.
Olívia foi buscar um copo d'água para Valentina.
— Bebe — ela disse, sua voz suave, mas prática. O instinto de cuidadora falando mais alto, a empatia materna.
Valentina pegou o copo com mãos trêmulas, mas não bebeu. Seus olhos, vermelhos e inchados, levantaram-se e fixaram-se em Carla. Havia uma avaliação ali, um reconhecimento amargo.
— Você é a Carla — ela disse, não como uma pergunta. — A nova.
A palavra 'nova' doeu, carregada de um desdém antigo e de posse. Carla endireitou os ombros.
— E você é a ex. A que não devia estar aqui.
Valentina soltou um riso curto e sem humor, quase um soluço.
— Nenhum de nós deveria estar nessa situação. Ela não devia estar nessa situação. — A voz quebrou novamente. — Meu bebê…
Olívia se ajoelhou ao lado da poltrona.
— Valentina, precisamos de qualquer informação. Coisas que possam parecer insignificantes. O Matheus vai encontrá-la, você sabe que ele vai.
— Eu sei — Valentina sussurrou, as lágrimas voltando. — Ele moveria o céu e o inferno por ela. É a única coisa boa… a única coisa verdadeira que ele faz. — Ela ergueu o olhar novamente para Carla, e desta vez, o desdém deu lugar a uma exaustão brutal, a uma necessidade de vomitar uma verdade que a consumia. — Ele não te contou sobre ela, não foi?
Carla não respondeu. Sentiu um aperto na garganta.
— Ele não te contou — Valentina continuou, como se lendo sua mente, — porque ele acha que não merece ela. A Luna. Acha que é um monstro. Que mancha tudo que toca. Que qualquer coisa boa que ele tenha… ele estraga. Ele arruína.
As palavras caíram na sala como pedras em um lago congelado. Carla sentiu o ar sair de seus pulmões.
— Eu… eu usei isso contra ele. Por anos — Valentina confessou, o olhar perdido no passado. — Dizia que ele não era bom o suficiente para ser pai. Que Luna precisava ser protegida… dele. Da violência dele, da escuridão dele. Era a minha arma. E ele… ele acreditava. Em parte, ele ainda acredita.
Ela olhou diretamente para Carla, uma lucidez dolorosa em seus olhos.
— Mas a Luna… a Luna é a única coisa pura que saiu da nossa união podre. Ela o ama. De um jeito simples, completo. E ele a ama com uma devoção que me aterroriza. Porque ele sabe que um amor daqueles… é o ponto mais fraco de um homem como ele. E ele esconde. Esconde ela do mundo. Esconde o mundo dela. Para proteger.
A compreensão chegou a Carla não como um clarão, mas como um amanhecer lento e doloroso. Não era desconfiança. Não era um segredo por falta de sentimento. Era o oposto. Era um auto-ódio tão profundo e um instinto protetor tão feroz que ele havia construído uma muralha ao redor daquela parte de sua vida, temendo que seu próprio toque a contaminasse. E, por extensão, temendo que Carla, ao se aproximar demais, também visse o "monstro" e se afastasse — ou pior, que se machucasse por associação.
Toda a raiva que Carla sentira dissolveu-se, substituída por uma dor aguda por ele. Por aquele homem carregado de demônios, que carregava seu amor como uma culpa e sua devoção como um risco.
Sem uma palavra, ela se virou e saiu do escritório. Seus passos ecoaram nos corredores vazios da mansão até que ela o encontrou. Ele estava na sala de controle de segurança, que Ian mandara instalar após o ataque de Helena. As telas mostravam câmeras de trânsito, mapas digitalizados. Ele estava de costas para a porta, os ombros tensos, falando baixo no rádio com um dos homens de Ian que já estava nas ruas.
Carla entrou e fechou a porta.
Matheus se virou. Seu rosto era uma máscara de granito, mas nos olhos, nas pequenas fissuras ao redor deles, ela viu o pavor, a fúria e uma exaustão desesperada. Ele a viu e um lampejo de algo — dor, constrangimento, saudade — passou por seu rosto antes que a máscara profissional se recompusesse.
— Carla, não agora. Preciso...
— Tudo bem — ele cedeu, a voz rouca. — Você vem. Mas... — Ele ergueu um dedo, seu olhar se tornando impiedoso, o olhar do comandante, não do amante. — Você obedece a cada ordem. Sem questionar. Sem hesitar. Se eu disser 'fica no carro', você fica. Se eu disser 'corre', você corre. Se eu disser 'não olhe', você fecha os olhos. Você é um ativo, não uma parceira. Entendido?
Era a maior prova de confiança que ele podia dar naquele momento. Não confiança em sua habilidade, mas confiança em sua obediência. Confiança de que ela não se tornaria um fardo, um ponto fraco adicional.
Carla manteve seu olhar.
— Entendido.
Ele segurou o olhar por um segundo mais, como se estivesse memorizando seu rosto. Então, se virou, pegou um colete tático extra de um armário e jogou para ela.
— Veste isso. Vamos. Agora.
Carla pegou o colete, pesado e frio. Enquanto o vestia sobre seu vestido de festa ameixa, um contraste absurdo e terrível, ela olhou para Olívia, que aparecera na porta, seu rosto marcado pela preocupação.
— Cuida dela — Carla sussurrou para a amiga, com um aceno na direção de Valentina.
Olívia anuiu, seus olhos cheios de medo, mas de apoio.
— Tragam-na de volta — ela sussurrou.
Sem olhar para trás, Carla seguiu Matheus pelos corredores, para a garagem, onde um SUV preto e sem identificação já estava com o motor ligado. Eles deixaram para trás a mansão, os restos da festa de casamento, a luz e a felicidade. Entraram na noite escura, seguindo a primeira pista tênue que K havia enviado para o telefone de Matheus: um registro de câmera de um posto de gasolina mostrando um carro velho com dois homens e, no banco de trás, um vulto pequeno e encolhido.
Ali, Carla não era mais apenas a amante, a confidente. Era agora um soldado em sua guerra mais pessoal. E Matheus, ao seu lado, dirigia com uma fúria silenciosa, um pai transformado em vingança, levando consigo a mulher que se recusava a vê-lo apenas como um monstro. Juntos, mergulharam nas sombras para resgatar a luz dele.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido