O tempo desacelerou para Carla. O som da festa — o jazz, as risadas, o tilintar de taças — se transformou em um zumbido distante e sem significado, abafado pelo rugido do seu próprio sangue nos ouvidos. As palavras de Matheus ecoavam dentro do seu crânio, cada sílaba um martelo batendo em um vidro fino.
Minha ex-esposa.
Casado. Ele havia sido casado. A imagem do homem que ela conhecia — o lobo solitário, o protetor feroz, o amante possessivo e complicado — rachou ao meio, revelando uma história inteira escondida nas sombras. Uma história que incluía laços legais, promessas diante de um juiz… e uma mulher com um rosto de porcelana fria e olhos que agora os observavam da escuridão.
Seu olhar, instintivo, voou para Olívia. Sua melhor amiga, sua confidente.
— Você… você sabia disso? — a pergunta saiu mais alta do que pretendia, carregada de uma traição secundária.
Olívia mordeu o lábio, seu olhar era de preocupação, mas também de uma certa frustração.
— Sim, Carla, eu sabia. Achei que… que você também soubesse. Que ele teria te contado.
— Contado? — Carla deu uma risada curta e sem humor, seus olhos voltando para Matheus, que parecia ter se transformado em uma estátua de tensão. — Por que ele teria feito isso? Não é relevante, certo? É só um detalhe do passado, tipo… uma ex que você casou. — O sarcasmo pingava veneno.
Olívia se aproximou, baixando a voz.
— Carla, eu conheci a Valentina. Foi horrível. Quando comecei a trabalhar na ONG veterinária, antes de tudo isso com o Ian explodir… ela apareceu. Tinha um cachorro, um paciente que eu estava cuidando. Ela… ela sabia quem eu era. Sabia da minha conexão com a família Moretti. De alguma forma, ela sabotou o soro do animal. Quase o matou. Tentou manchar meu nome antes mesmo dele existir para o público. — Ela olhou na direção da mulher. — Ela é perigosa. Doente. E ela tem uma obsessão pelo Matheus que vai muito além do término de um casamento.
Carla sentiu o chão ceder um pouco mais. Ela encarou Matheus novamente, a raiva e a dor da descoberta se misturando em um caldeirão fervente dentro dela.
— Então é esse o tipo de mulher que você se apaixona? — A voz de Carla trincou. — E você acha que é melhor não me contar? Que isso não importa?
Matheus finalmente se moveu. Seus punhos estavam cerrados ao lado do corpo, os nós dos dedos brancos. Ele parecia atordoado, não pela aparição de Valentina, mas pelo impacto que a revelação tinha em Carla.
— Carla, por favor — a voz dele saiu rouca, um misto de súplica e advertência. — Não é… não é assim.
— Por favor, o quê? — ela explodiu, dando um passo à frente, ignorando a presença de Ian e Olívia. — Está separando na sua mente todas as coisas que você ainda não me contou? Uma ex-mulher é uma coisa, Matheus! Uma ex-mulher que é uma psicopata manipuladora é outra! E você a deixou… onde? Na sua vida? Na sua cabeça?
Ele abriu a boca para responder, para explicar, para tentar cavar um caminho de volta através da parede de gelo que ele viu se formando nos olhos dela. Mas antes que qualquer som pudesse sair, um dos seguranças de Ian, um homem jovem com um fone de ouvido, se aproximou rapidamente.
— Senhor Moretti, Matheus — ele disse, mantendo a voz baixa, mas urgente. — Tem uma mulher no portão principal. Não está na lista. Insiste em entrar. Diz que precisa falar com o Matheus. É… é a Valentina Tanous.
Ian e Matheus trocaram um olhar instantâneo. A decisão foi unânime, não precisou ser falada.
— Ela permanece do lado de fora — Ian ordenou, sua voz fria e final. — Sob nenhuma circunstância ela entra. Se não sair, chame a segurança do condomínio.
O mundo de Matheus parou.
Não foi um congelamento de raiva ou de cálculo. Foi uma parada total, como se um interruptor tivesse sido desligado em seu cérebro. Todo o sangue pareceu drenar de seu rosto, deixando-o pálido como a morte. Seus olhos, que um segundo antes queimavam com fúria, se esvaziaram, substituídos por um vazio de terror puro e cego. A respiração dele simplesmente cessou.
Carla, observando a transformação horrenda no homem que ela amava — porque sim, mesmo naquela confusão, ela amava aquele homem complicado —, sentiu um frio mortal percorrer suas próprias veias. Ela sussurrou, a voz quase inaudível no silêncio súbito que caíra sobre eles:
— Quem é… Luna?
Matheus nem a ouviu. Seu olhar estava preso no rosto desfigurado pelo medo de Valentina. Quando ele finalmente conseguiu forçar o ar a sair de seus pulmões, a resposta não foi um rugido, não foi uma pergunta. Foi um suspiro arrastado, a confissão de um pesadelo tornado real, cada palavra saindo como se fosse arrancada de sua alma.
— A Luna… — a voz dele era irreconhecível, áspera e cheia de um pavor que Carla nunca imaginara nele. — …é minha filha.
Ele engoliu em seco, os olhos se fechando por uma fração de segundo, como se tentasse bloquear a realidade.
— E levaram… levaram a minha Luna.
A festa ao redor continuava, um universo paralelo de felicidade. Mas no pequeno círculo sob as lanternas, um novo e aterrorizante capítulo acabara de começar. E o preço do passado de Matheus, silenciado e enterrado, acabara de ser cobrado da forma mais cruel possível.

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