As batidas na porta não paravam. Toc. Toc. Toc. Rítmicas, insistentes, como o tic-tac de um relógio marcando o fim de uma vida. Marina Tavares ainda tremia, aquele grito de "VAI!" de Rafael ecoando em seus ouvidos junto com o choro das crianças, que haviam acordado assustadas no quarto ao lado.
Ela se arrastou até a porta, limpando as lágrimas com as costas da mão, tentando compor um rosto que já não existia. Pelo olho mágico, viu duas figuras: um homem e uma mulher, ambos de ternos sóbrios, expressões graves, segurando crachás contra o vidro fosco. Não eram da polícia comum. O crachá tinha o brasão da Polícia Federal.
O desespero misturou-se com um novo tipo de pavor. Isso já não era sobre fofoca de traição. Era algo maior, mais profundo, como as manchetes que ela mal conseguira ler antes de Rafael a atacar.
Ela abriu a porta, apenas uma fresta, acorrentada.
— Sim? — sua voz saiu como um fiapo.
— Boa noite, senhora Marina Tavares? — perguntou a agente, uma mulher de meia-idade com olhos que não perdoavam. — Somos da Polícia Federal. Gostaríamos de falar com seu marido, Rafael Tavares. E, se possível, fazer uma inspeção no local, com mandado.
— Ele… ele não está — Marina gaguejou. — Viajou. A trabalho. Não sei quando volta.
Os dois agentes trocaram um olhar.
— Senhora Tavares — o homem começou, sua voz mais suave, mas igualmente firme, — temos motivos para acreditar que seu marido está envolvido em crimes de falsidade ideológica, desvio de recursos, fraude contra a saúde pública e sonegação fiscal em grande escala. As evidências são substanciais e vieram a público há poucas horas. É do interesse dele, e talvez do seu, cooperar.
Marina sentiu as pernas fraquejarem. As palavras eram balas. Crime. Fraude. Pública. Ela olhou para trás, para o corredor vazio que levava ao quarto. A fuga súbita de Rafael, a violência no empurrão, a prioridade dele em salvar a própria pele… as peças se encaixaram com um clique doloroso.
Ele não apenas mentira sobre as traições. Ele mentira sobre tudo. E agora, quando as paredes desabavam, ele a jogara na frente do desabamento e fugira.
— Podemos entrar, senhora? — a agente pressionou, já segurando uma cópia do mandado.
Em estado de choque, Marina destrancou a porta e recuou. Os agentes entraram, profissionais e metódicos. Enquanto o homem começava a vasculhar papéis na escrivaninha de Rafael, a mulher se voltou para Marina.
— Onde ele poderia ter ido, senhora? Tem alguma propriedade, um amigo próximo, um… refúgio?
Marina balançou a cabeça, as lágrimas voltando, agora de raiva.
— Eu… eu não sei. Ele não me dizia mais nada. Só… só mentiras. — Ela olhou para o quarto dos filhos, a porta entreaberta, dois pares de olhinhos assustados espiando.
O instinto materno, mais forte que qualquer lealdade conjugal quebrada, falou mais alto.
— Ele fugiu — ela disse, a voz ficando mais firme, mais clara. — Quando as batidas começaram, ele me empurrou para atender e fugiu. Ele nos abandonou. Abandonou os filhos.
A agente anotou algo em um bloco.
— Você tem ideia de por onde? Alguma saída alternativa da casa?
Foi então que Marina se lembrou. O closet. A estante de sapatos que Rafael sempre mantinha "travada por questão de segurança das crianças". Ela nunca questionara. Levou os agentes até lá. Encontraram o mecanismo com facilidade — um dos agentes notou as marcas no carpete. A porta secreta, agora aberta para um corredor escuro, era a confirmação final.
— O papai… cometeu alguns erros muito graves. E agora temos que ir para um lugar seguro, só nós três. Vai ficar tudo bem. A mamãe vai cuidar de vocês.
Ela não tinha mais dúvidas. Rafael escolhera seu caminho. Agora ela escolheria o dela: sobrevivência.
Horas depois, em uma sala segura da Polícia Federal, Marina, com uma xícara de café frio nas mãos, começou a despejar tudo. Nomes, datas, valores, locais. A agente anotava, e um gravador digital capturava cada palavra.
— ...e ele sempre falava com desprezo dos Moretti, ainda que o hospital que ele trabalhasse tivesse a presidência deles. Mas nos últimos dias, esse desprezo chegou a ser uma obsessão. Dizia que o homem era um animal, que tinha humilhado ele. Mas eu não sabia de qual Moretti ele falava, mas eu acho que foi isso que desencadeou tudo. Acredito que Rafael tentou atacar os Moretti e eles só...
Marina fez uma pausa, seus olhos se arregalando levemente ao conectar os pontos.
— Só revidaram. Mas agora ele está livre. Com ódio. E sem nada a perder. — Ela olhou para a agente, um novo medo, mais agudo, surgindo em seu rosto. — Ele não vai atrás da polícia. Ele não é corajoso para isso. Ele vai atrás de quem ele acha que causou isso. Ele vai atrás dos Moretti. E se ele descobrir alguma fraqueza…"l
Enquanto Marina falava, do outro lado da cidade, em um motel barato, Rafael olhava para a tela de seu laptop, seus olhos injetados fixos em uma foto antiga e desfocada, baixada de um perfil arquivado. A foto mostrava Valentina Moretti, em um evento de caridade anos atrás, e ao fundo, quase fora do quadro, a figura sombria e vigilante de Matheus. Mas não era a postura profissional que chamava a atenção. Era o jeito como o olhar de Matheus, mesmo à distância e de lado, parecia pousar sobre Valentina. Um olhar carregado de algo mais do que dever profissional.
Rafael sorriu, o sorriso de um homem que encontrou a única moeda que lhe restava para apostar.
Enquanto isso, na mansão Moretti, Matheus verificava os últimos relatórios de K. O desmantelamento de Rafael era completo, uma obra de arte da ruína. Ele estava satisfeito. A ameaça estava neutralizada. Sua atenção voltava-se totalmente para a segurança do casamento, para a felicidade de Ian e Olívia, para o futuro que estavam construindo, e principalmente, para Carla.
Mas ele não sabia que, nas profundezas do ódio de um homem destruído, uma nova e muito mais perigosa ameaça acabava de ser identificada. E ela tinha um nome.

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