A paz no quarto era tão densa e doce que parecia um elemento físico, envolvendo Ian e Olívia como um casulo acolhedor. O ar ainda carregava o aroma do sexo e da verdade, mas agora temperado pelo brilho suave do sol da tarde que entrava pela janela. Olívia, ainda meio deitada sobre o peito dele, ergueu a mão esquerda, deixando a luz dançar nas facetas do solitário anel.
Ela riu, um som leve e maravilhado.
— Você já me deu dois desses, sabia?
Ian sorriu, seus dedos traçando círculos nas costas dela.
— Esse é o terceiro. E o único que importa. Os outros foram ficção. Este… — Ele puxou a mão dela e beijou o anel. — Este não tem nenhuma mancha por trás. Nenhum acordo, nenhuma jogada. Só você e eu.
Olívia se acomodou melhor, sua cabeça no ombro dele.
— E o casamento. Ian, podemos fazer exatamente como a gente quiser. Sem pressão da mídia, sem exigências de império, sem… — Ela fez uma pausa, a felicidade quase a sufocando. — Pela primeira vez na minha vida, vou poder sonhar com um casamento de verdade. Só nosso.
Ele riu, sentindo a empolgação dela vibrar contra seu corpo.
— Pode fazer o que quiser. Nos jardins, na praia, no topo de um prédio… Só me avisa a hora e o lugar.
Ela se ergueu, apoiada nos cotovelos, seus olhos brilhando.
— Nos jardins. Ao pôr do sol. Com apenas as pessoas que realmente importam. — Ela o agarrou então, em um abraço forte que fez ele suspirar de satisfação, antes de sua boca encontrar a dele em um beijo que rapidamente se aprofundou, cheio da promessa do futuro que agora tinham permissão para desejar.
Ian sorriu contra seus lábios.
— Pelo visto — ele murmurou, suas mãos descendo por sua coluna, — eu vou aproveitar muito essa gravidez.
Olívia respondeu com outro beijo, mais lento, mais provocativo. Então, deslizou da cama e o puxou pela mão.
— Vem — ela ordenou, um brilho travesso em seus olhos. — Sei como fazer algo que não exige muito esforço da sua parte… mas garanto que vai valer a pena.
Ian gargalhou, um som livre e genuíno, e se deixou ser guiado, sua bengala esquecida mais uma vez. Ele a seguiu até o banheiro espaçoso, onde a banheira de mármore já parecia um convite.
Enquanto isso, no andar de baixo, a mini-festa seguia seu curso tranquilo. Léo, agora com um pouco de açúcar no sistema, corria em círculos ao redor de Matheus, mostrando sua arma de brinquedo e explicando táticas de "proteção" inventadas na hora. Carla observava a cena com um sorriso, mas seus olhos se desviavam frequentemente para a escadaria. Matheus, por sua vez, mantinha uma vigilância relaxada, seu olhar também voltando para o vão da escada a cada poucos minutos.
Cerca de meia hora depois, passos foram ouvidos. Olívia e Ian desceram, suas roupas rearrumadas, mas transportando uma aura palpável de intimidade recente. O cabelo de Olívia, antes preso, caía em ondas soltas e levemente úmidas sobre seus ombros.
Carla arqueou uma sobrancelha ao vê-los, um sorriso sarcástico tocando seus lábios.
— Sério, gente? — ela disse, cruzando os braços. — Não podiam esperar?
Olívia parou, confusa.
— Esperar o quê?
Carla revirou os olhos, apontando para a cabeça da amiga.
— O cabelo, Olívia. Está molhado. Dá pra saber a milhas de distância o que vocês foram fazer.
Um rubor intenso subiu do pescoço de Olívia até suas bochechas. Ian, ao seu lado, apenas sorriu, abraçando-a pelos ombros.
— É bom estar em casa — ele declarou, sem nenhum traço de vergonha.
Matheus, próximo à lareira, tentou disfarçar um sorriso virando-se para examinar um livro falso na estante, seus ombros tremendo levemente.
Olívia, decidindo ignorar a provocação, sacudiu a cabeça e se dirigiu ao filho.
— Léo, meu amor, acho que já podemos cortar aquele bolo maravilhoso, não é?
A reunião ao redor da mesa do bolo foi repleta de risadas fáceis e conversas leves. Mas por baixo da superfície, havia uma corrente de intensidade. Ian não tirava os olhos de Olívia, seu olhar carregado de um amor tão profundo e grato que era quase tangível. Ela, por sua vez, sorria de uma forma que iluminava todo o seu rosto, suas mãos tocando o anel ou descansando, instintivamente, sobre o ventre ainda plano.
— Você realmente não consegue segurar seu pau, não é? — Matheus murmurou, baixinho.
Ian riu, um som de pura satisfação.
— E algo me diz que você também não vai segurar o seu por muito tempo — ele retrucou, seu olhar desviando-se significativamente para Carla. — Aqueles dias de folga que você me pediu? Pode tirar. Mas precisa estar de volta antes do casamento. — Ele fez uma pausa, um sorriso amplo em seu rosto. — Aliás, é meu padrinho. Não tem escolha.
Matheus acenou, uma onda de emoção genuína passando por seu rosto normalmente impassível. — É uma honra.
O restante da tarde foi uma bolha de felicidade descomplicada. Riam, planejavam, Léo fazia mil perguntas sobre o "bichinho". Quando o cansaço começou a bater em Ian, ele e Olívia se retiraram para o sofá, observando o pequeno grupo que se tornara sua família.
Enquanto Carla recolhia os pratos, Matheus se aproximou dela na cozinha. O barulho da água na pia abafava o som do salão.
Ele tocou seu braço levemente. Ela se virou, um questionamento em seus olhos.
— Você tem algum tempo para mim? — Matheus perguntou, sua voz mais suave do que ela jamais ouvira.
Carla franziu a testa.
— O que você está falando?
Ele se inclinou, seus lábios a um centímetro de seu ouvido, seu hálito quente contra sua pele.
— Agora — ele sussurrou, as palavras carregadas de uma promessa densa e eletrizante, — é a parte da nossa história. E será inesquecível. — Ele fez uma pausa, deixando as palavras pairaram. — Mas te garanto que teremos alguns momentos… que você sequer lembrará seu nome.
Um calafrio percorreu a espinha de Carla. Não era uma ameaça. Era uma promessa. Uma declaração de guerra contra todos os fantasmas e medos que os separavam. Ela virou a cabeça, seus lábios quase tocando os dele. Seus olhos se encontraram, e neles havia um acordo silencioso, uma rendição antecipada ao furacão que era Matheus.
No salão, Olívia riu de algo que Léo disse, sua mão entrelaçada com a de Ian. O sol se punha do lado de fora, pintando o céu de laranja e roxo, iluminando o rosto daqueles que, depois de tanto inverno, finalmente saboreavam o primeiro, doce e promissor, dia da primavera.

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