O portão principal da mansão Moretti se abriu não para um retorno triunfal, mas para uma chegada íntima e esperançosa. A imponência neoclássica do lugar, antes uma sentinela de segredos, parecia menos severa sob a luz suave do fim de tarde. O gramado estava impecável, e as janelas refletiam o céu cor-de-rosa, mas a verdadeira mudança estava no ar.
Dentro, no salão principal, uma cena inimaginável meses atrás se desdobrava. Balões coloridos, alguns meio murchos e amarrados com jeito infantil às cadeiras e à escadaria. Uma mesa com salgadinhos, sucos e um bolo simples com os dizeres “BEM-VINDO PARA CASA, PAPAI!” escrito com glacê um pouco tremido. Léo, vestindo uma camisa social pequena e gravata borboleta, pulava de um pé no outro ao lado de Carla, que ajustava o último balão com um sorriso terno.
Olívia, ao lado de Ian que apoiava-se levemente em uma bengala elegante, fingiu a surpresa com perfeição.
— Léo, meu amor, o que é isso? Que lindo!
Ian parou à porta do salão, sua expressão era de um deslumbramento absoluto. Seus olhos percorreram os balões, o bolo, o rosto ansioso e radiante de Léo. Por tantos anos, aquela casa tinha sido um mausoléu de mármore, fria e silenciosa, ressoando apenas com passos solitários e o peso do passado. Agora, ela estava cheia de cor, de luz, de uma alegria desengonçada e sincera. Era um lar.
— Papai! — Léo desengrenou e correu em direção a ele, mas desacelerou no último segundo, lembrando-se dos avisos sobre os ferimentos. Ele parou diante de Ian e o abraçou com cuidado, enterrando o rosto em seu casaco. — Finalmente você tá em casa.
A frase simples atravessou Ian como uma corrente quente. Em casa. Ele baixou a cabeça, enterrou o nariz nos cabelos macios do menino e respirou fundo, contendo a onda de emoção que ameaçava tomá-lo.
— Estou, filho. Estou em casa. E é a melhor recepção que eu já tive.
Matheus, postado discretamente perto da entrada da sala de jantar com seu habitual ar vigilante, se aproximou. Segurava dois copos de uísque. Ofereceu um a Ian com um leve aceno.
Ian estendeu a mão, mas Olívia foi mais rápida.
— Não pode! — Ela interceptou o copo com um movimento suave, mas firme. — Nada de álcool ainda, o médico foi claro. — Seu tom era de cuidadora, não de reprimenda.
Matheus puxou o copo de volta, um quase-sorriso tocando seus lábios. Ele se inclinou levemente para Ian e murmurou, baixo o suficiente para só ele ouvir:
— Já começou. Dominado.
Ian riu, um som baixo e genuíno. Seus olhos piscaram maliciosamente para Matheus antes de se desviarem para Carla, que observava a cena de longe, um brilho de diversão nos olhos. Ian apontou com o queixo quase imperceptivelmente na direção dela.
— Engraçado, logo você falar isso — sussurrou de volta.
Um rubor subiu pelo pescoço de Matheus, mas ele manteve a compostura. Aproveitou o momento de leveza para abordar o chefe.
— Ian, só um assunto rápido. Teria algum problema se eu pegasse uns dias de folga? Em breve. Estava pensando em… resolver algumas coisas.
Ian arqueou uma sobrancelha, o divertimento aumentando em seu rosto. Ele sabia muito bem quais “coisas” Matheus queria resolver, e seu nome era Carla.
— Acabei de voltar, você já quer me ser demitido? — brincou, antes de ficar sério. — Claro que não. Só me passe um resumo de qualquer movimento relevante dos últimos dias e pode ir. Você precisa depois de tudo.
Matheus acenou, aliviado.
— Bem, falando nisso…
Foi interrompido por um grito animado.
— Tio Matheus! Olha!
Léo correra para o meio do salão e empunhava uma arma de brinquedo de plástico preto, mirando com seriedade para um alvo imaginário na parede.
— Quando eu crescer, vou proteger as pessoas que eu amo, que nem você faz!
A declaração inocente caiu como uma bomba de amor e ciúme no coração de Ian. Ele sentiu um aperto no peito – orgulho pelo menino que via um herói em Matheus, e uma pontada aguda, irracional, de ciúme por não ser ele, ainda, aquele símbolo de proteção para Léo.
Olívia, percebendo a sombra passageira no rosto de Ian, se aproximou e deslizou a mão no braço dele.
— Está tudo bem? — sussurrou.
Ele piscou, voltando ao presente.
E então, entregou o relatório final, verbal, de cada peça do tabuleiro que ele deixou em suspenso:
— O julgamento de Helena foi marcado para o próximo mês. Ela vai confessar tudo em troca de uma pena em regime semiaberto, longe daqui. Os advogados já fecharam o acordo. Alberta foi transferida para uma clínica psiquiátrica de alta segurança e alto custo. Ela terá cuidados, não um cárcere comum. Alexander foi condenado em flagrante por tentativa de homicídio, sequestro e uma dúzia de outras acusações. Não vai ver a luz do sol por décadas. Clara está em prisão domiciliar, monitorada. O nascimento do bebê será supervisionado, e os direitos sucessórios… bem, serão um processo longo, mas contido.
E, por fim, o golpe de misericórdia no último fantasma:
— Quanto à Carolina… o bebê que ela espera não é seu, Ian. É do Vitório. Como você sabia, elas tinham um caso. Ele resolveu a… ‘situação’ dela. Ela não é mais um problema.
Ian ficou paralisado. Sentado àquela mesa, olhando para a mulher que achava que precisava proteger de tudo, ele se via diante de uma general que havia travado e vencido batalhas cruciais em sua ausência. O choque deu lugar a uma admiração tão profunda que doía.
— Como… como você fez tudo isso? — sua voz saiu rouca, embargada.
Olívia encolheu os ombros, mas seus olhos brilhavam.
— O amor que eu sinto por você me deu uma coragem que eu não sabia que tinha. O medo de perder tudo de novo me deu foco. E tive que estudar, Ian. Livros, contratos, noites em claro. Pedi ajuda à Carla, ao Matheus, até ao próprio Vitório, com quem mantenho um olho aberto. Mas consegui. Para que você pudesse se recuperar em paz. Para que a gente pudesse ter um ponto de partida limpo.
Todas as barreiras, todos os controles de Ian caíram naquele momento. A emoção o inundou, pura e avassaladora. Ele levantou-se com um pouco de dificuldade, seus olhos nunca deixando os dela.
— É por isso — ele começou, a voz trêmula de sentimento. — É por isso que eu te amo, Olívia. Por essa força, por essa luz, por ser o alicerce quando tudo parece desmoronar. E é por isso… que eu não consigo mais esperar.
Ele mancou até ficar bem diante dela. Com um movimento deliberado, apoiou a bengala na mesa e afundou a mão no bolso interno de seu casaco. Quando a tirou, trazia uma caixa de veludo azul, pequena e clássica. Ele começou a se abaixar, os joelhos cedendo lentamente, dolorosamente, em direção ao chão.
O mundo de Olívia desacelerou até parar. O sangue correu mais rápido em suas veias, não de alegria, mas de pânico puro. A promessa que ela fizera a si mesma no hospital: "tenho que contar para ele. Antes que o mundo desabe sobre nós de novo", ecoou em sua mente como um alarme.
Antes que ele pudesse se ajoelhar por completo, antes que a primeira sílaba da proposta pudesse sair de seus lábios, as palavras explodiram da boca de Olívia, cortando o ar carregado de romance com a crueza de uma verdade há muito guardada.
— Ian, estou grávida.

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