O corredor do hospital, após a intensidade do confronto com Matheus, parecia insondavelmente frio e vazio para Carla. Ela se arrumou ainda mais, tentando apagar qualquer vestígio físico do que acontecera, e foi em busca de Olívia. Precisava da amiga. Precisava de um ponto de ancoragem naquele caos.
Foi primeiro ao quarto de Ian. A porta estava entreaberta. Dentro, ele dormia, pálido, mas estável, o bip-bip-bip do monitor mantendo um ritmo tranquilizador. Mas Olívia não estava na cadeira ao lado da cama.
Uma pontada de preocupação a fez acelerar o passo. Ela foi até a pequena sala de visitas onde Léo estava sob vigilância. O segurança na porta, um homem sério que ela reconheceu do time de Matheus, a viu se aproximar.
— Onde está Olívia? — Carla perguntou.
— Foi ver a prisioneira. A Clara. — o segurança informou, seu tom neutro.
O sangue pareceu esfriar nas veias de Carla. Clara. Aquela mulher era uma ferida aberta para Olívia, um símbolo vivo de tudo que havia dado errado. Ir vê-la sozinha, naquele estado emocional instável… não parecia uma boa ideia.
— Não deveria ter deixado ela ir sozinha — Carla murmurou, mais para si mesma, e começou a caminhar rapidamente pelo corredor, seguindo as instruções do segurança.
Quando chegou à sala de exames isolada que servia de quarto temporário para Clara, a porta estava fechada, mas a janela de vidro permitia ver dentro. A cena era de uma tensão silenciosa e cortante.
Olívia estava em pé ao lado da cama, os braços cruzados, seu corpo uma linha rígida de desaprovação. Ela encarava Clara, que estava sentada na cama, vestindo um roupão do hospital, as mãos pousadas sobre a barriga proeminente. O ar entre elas parecia eletrizado.
Carla entrou sem bater, o instinto de proteger a amiga falando mais alto.
— Olívia? Tá tudo bem?
Olívia nem se virou. Seus olhos permaneceram fixos em Clara.
— Tudo sob controle — ela respondeu, a voz fria e lisa como uma lâmina. Então, voltou a falar, direcionando cada palavra como um dardo. — Você estava dizendo?
Clara, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, engoliu em seco.
— Eu… eu só queria dizer, por favor, Olívia… eu nunca quis fazer mal de verdade a você ou ao seu filho. Eu juro. Eu sequer sabia todos os planos do Alexander. Não sabia que tinha mais gente envolvida. Achei que seria só… só eu e ele. Porque eu… — Sua voz quebrou. — Porque realmente me apaixonei por ele.
Um sorriso lento, amargo e terrivelmente cínico surgiu nos lábios de Olívia.
— Você realmente se apaixonou por ele. E quanto ao Benjamin, Clara? Ele era louco por você. Acreditou que a criança que você carrega era dele. E você o abandonou sem pensar duas vezes pelo Alexander, não foi?
Clara encolheu-se, mas um lampejo de algo parecido com desafio brilhou em seus olhos.
Sem esperar por uma resposta, Olívia se virou e saiu da sala. Suas costas eram retas, seus passos, firmes.
Carla lançou um último olhar para Clara — uma mistura de pena e desprezo — antes de sair atrás da amiga. No corredor, ela alcançou Olívia, pegando-a gentilmente pelo braço.
— Olivia… meu Deus. Como você… mudou assim?
Olívia parou e finalmente se virou para encarar a amiga. Seus olhos, antes cheios de uma fúria gelada, agora mostravam uma determinação profunda, gravada pelo sofrimento. Não havia mais sombra da mulher hesitante que Carla conhecera.
— Descobrir que toda a sua vida é uma mentira te dá uma nova perspectiva, Carla — Olívia disse, sua voz baixa, mas incrivelmente clara. — Quase perder tudo… o homem que você ama, seu filho… isso te mostra o que realmente importa. Não vou me calar mais. Não vou recuar. Vou lutar. Pelo Ian. Pelo Léo. Pelo futuro que merecemos. E pelo legado que vamos deixar para ele, um legado de verdade, não de segredos podres.
Ela olhou na direção do quarto de Ian, e seu rosto se suavizou por uma fração de segundo.
— E quando o Ian acordar — ela continuou, voltando o olhar para Carla — não vai ter uma única pena solta nessa história. Nenhum segredo pairando sobre nós. Vamos arrasar com tudo, Carla. Até o último tijolo da mentira desmoronar. E então… então a gente reconstrói.
Carla observou a amiga, impressionada e, de certa forma, inspirada. A dor havia forjado uma nova Olívia. Mais dura, mais determinada, impiedosa quando necessário, mas movida por um amor feroz e protetor. Era assustador. Era poderoso.
E, pela primeira vez desde que toda a tragédia começara, Carla sentiu um verdadeiro vislumbre de esperança. Se Olívia conseguia se levantar daquela forma, talvez… talvez houvesse um futuro possível para todos eles. Um futuro limpo, construído sobre os escombros da verdade.

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