O toque do celular vibrando sobre a fria mesa de vidro foi como um choque no ar carregado da sala de conferências. Olívia viu o nome: Carla.
— Com licença — ela disse aos sócios, com uma calma que não sentia, e atendeu. — Carla? Tudo bem?"
A voz de Carla chegou do outro lado da chamada, clara mas carregada de uma tensão resolvida.
— Olívia, estamos voltando. E não estamos sozinhos. O Matheus conseguiu localizar e… conter a Clara. Ela está conosco.
Um turbilhão de emoções passou por Olívia. Alívio, porque uma ameaça potencial estava sob controle. Desgosto, ao lembrar-se da mulher que fora cúmplice de Alexander. E uma pontada aguda de preocupação pela criança que ela carregava — uma criança que, querendo ou não, era parte daquela teia sanguínea maldita.
— Certo — Olívia respondeu, mantendo a voz neutra e profissional. — Tragam-na em segurança. E… cuidem dela, Carla. Ela está grávida.
— Estamos cuidando — a voz de Carla soou estranhamente suave por um instante. — Até logo.
Olívia desligou e voltou seu olhar para os homens à mesa, que a observavam com curiosidade e expectativa. Um leve sorriso, mais estratégico do que genuíno, tocou seus lábios.
— Bom, um problema a menos. A segurança do Ian conseguiu localizar Clara. Ela está sendo trazida de volta e em breve teremos todos os esclarecimentos e os direitos sucessórios devidamente mapeados e resolvidos.
Ela não gostava da ideia de ter Clara tão perto. Cada vez que pensava nela, via o desespero nos olhos de Léo no armazém, com ela e ela simplesmente não fez nada. Mas sabia, com uma clareza fria, que era infinitamente melhor tê-la sob custódia e sob os olhos da lei do que solta, desesperada, podendo ser uma peça manuseada por inimigos remanescentes.
Foi quando o sócio mais jovem, Silva, aquele do setor de fusões, pigarreou.
— Isso resolve uma ponta, sim. Mas ainda nos resta a questão mais… incômoda. A Carolina.
O nome caiu na sala como um peso de chumbo. Olívia sentiu os músculos do estômago se contraírem.
Silva continuou, incisivo.
— A ex namorada. A que apareceu grávida e clamando aos céus que o filho era do Ian, tentando prendê-lo antes de tudo isso começar. Com a morte do Benjamin e a desintegração de Nicolau, se ela conseguir provar a paternidade…
— O filho não é dele.
A interrupção veio seca, clara e inesperada. Todos os olhos se viraram para o canto mais silencioso da sala. Lá, sentado com uma postura impecável, estava Vitório. O advogado-chefe das Indústrias Moretti, homem de meia-idade, trajes impecáveis e um olhar que parecia enxergar através de qualquer fachada. Ele era a lei encarnada da família.
Olívia o encarou, a surpresa a deixando sem palavras. Ela sabia que aquele filho não podia ser de Ian. Sabia do procedimento médico que ele fizera meses atrás, uma decisão tomada em meio ao desespero de não querer perpetuar o sobrenome de forma alguma. Mas era uma informação íntima, dolorosa, que ela jamais revelaria naquela mesa.
Vitório manteve o olhar calmo sobre os sócios.
— Não há motivo para preocupação com a Carolina ou com a criança que ela espera. Ela não representa uma ameaça à estrutura acionária ou ao nome de Ian.
— Como pode ter tanta certeza, Vitório? — perguntou Eduardo, levantando uma sobrancelha.
Um sorriso quase imperceptível tocou os lábios do advogado.
— Porque eu lido com fatos, senhores. E os fatos, neste caso, são bastante conclusivos. Deixem esse assunto comigo. Carolina não será um problema.
O mundo desfocou. O som dos corredores do hospital sumiu, substituído por um zumbido agudo em seus ouvidos. O papel tremeu em sua mão. Gravidez. Ian. Vasectomia. As palavras giraram em sua mente como cacos de vidro. A cronologia… o único momento possível… tinha sido naquela noite, depois de tudo, no quarto escuro da mansão, quando a dor e a necessidade os uniram de uma forma crua e vital. Mas era impossível.
Ela ergueu os olhos, lentamente, para encontrar o olhar preocupado do Dr. Almeida. A pergunta que saiu de seus lábios não foi sobre saúde, sobre riscos, sobre o futuro. Saiu como um sussurro rouco, carregado de um pânico tão profundo que era quase primal.
— Doutor… isso… isso pode não sair daqui? Pode não falar sobre isso com ninguém? — Ela engoliu em seco, forçando as palavras finais, as mais importantes. — Principalmente… principalmente com o Ian.
O médico hesitou, sua ética profissional em conflito com a expressão de absoluto desespero no rosto da mulher à sua frente.
— Senhora Olívia… é uma informação importante. Para seu próprio acompanhamento, e…
— Por favor — ela cortou, a voz falhando. — Apenas… por algum tempo. Ele está frágil. Há muita coisa… Por favor.
Dr. Almeida observou-a por um longo momento. Viu a exaustão, o choque, a súplica genuína. Finalmente, com uma expressão de extrema relutância, ele acenou levemente com a cabeça.
— Por enquanto. Mas você precisa de cuidados. E ele tem o direito de saber, eventualmente.
— Eventualmente — ela ecoou, o papel sendo esmagado em sua mão como um segredo quente e aterrorizante. "Obrigada.
Ela se virou e continuou a caminhar em direção ao quarto de Ian, cada passo parecendo mais pesado do que o anterior. No bolso de seu tailleur, o resultado do exame queimava como um carvão. Lá estava ela, grávida do homem que acreditava não poder ter mais nenhum filho, no momento mais caótico e perigoso de suas vidas, com fantasmas do passado reaparecendo com segredos sombrios, uma inimiga grávida sendo trazida de volta e o amor de sua vida acamado e vulnerável.
A nova vida que crescia dentro dela, em vez de alegria, sentia-se como a última e mais cruel peça de um quebra-cabeça diabólico. E ela não tinha ideia de onde ela se encaixava.

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