O bip-bip-bip do monitor era o novo batimento cardíaco da existência de Olívia. Ela observou Ian adormecer, a mão ainda envolta na dele, até que sua respiração se tornou profunda e regular sob o efeito da medicação. Só então se permitiu soltar um suspiro que vinha de um lugar cansado de sua alma. Levantou-se com cuidado, cada músculo protestando contra as horas de imobilidade tensa, e saiu do quarto da UTI.
No corredor, o ar mudou imediatamente. Do silêncio carregado de dor e máquinas para o ar frio e vigilante da segurança. Matheus estava lá, uma torre de tensão e culpa encarnada, seus olhos escaneando o corredor sem cessar. Ainda ao seu lado, inesperademente Carla permanecia.
— Carla — Olívia disse surpresa, mas com um vislumbre de alívio genuíno. Ver um rosto familiar que não estava ligado àquele pesadelo era um bálsamo.
— Não me deixe começar — disse Carla, abrindo os braços. O abraço foi rápido, mas firme. — Você não deveria estar sozinha nisso.
Olívia anuiu, engolindo em seco. Apoiou-se na parede fria, o cansaço quase físico da conversa com Helena voltando a pesá-la. Olhou para Matheus.
— Ela falou. Helena. Disse onde está o resto. Tudo.
Matheus franziu a testa, seu instinto profissional sobrepondo-se a qualquer outro sentimento.
— Onde?
Olívia passou as informações: o nome do banco no interior do estado, o código do cofre, o nome do advogado que guardava as chaves e o diário com as senhas.
— Ela chamou de ‘herança’. São provas. De tudo. Dos Moretti, dos sócios, dos crimes. É o que precisamos para enterrar isso de vez.
Matheus já estava assimilando, processando logística, riscos.
— Eu vou. Agora mesmo. Consigo uma escolta de confiança da polícia civil, alguém que não esteve na folha de pagamento dos Moretti.
— Eu… eu iria — Olívia disse, e a frustração era palpável em sua voz. — Mas não posso deixá-los. Não agora.
Foi então que Carla interveio, sua voz clara e decidida cortando o ar.
— Eu vou com ele.
Olívia e Matheus se viraram para ela, igualmente surpresos.
— Carla, você não precisa… — começou Olívia.
— Preciso, sim — ela cortou, sem olhar para Matheus. Seu olhar era para Olívia, mas sua postura era um muro voltado para ele. — Já fiquei afastada demais. De você. De tudo. Não por medo, mas por… orgulho tolo. Errei ao me afastar quando você mais precisava de uma amiga de verdade. Estou aqui agora. E se isso ajuda a acabar com a ameaça sobre você e o Léo, então eu vou. É simples.
Matheus a observou, um músculo pulsando em sua mandíbula. Eles não haviam trocado uma palavra pessoal desde a noite em que ele a deixou esperando no restaurante. O rancor dela era um campo de força visível.
— Não é missão para civis — ele disse, a voz mais áspera do que pretendia.
— A Helena era uma ‘civil’. E conseguiu arquitetar tudo isso — Carla rebateu, finalmente lançando-lhe um olhar gélido. — Eu sei lidar com documentos, com burocracia, com códigos. Você sabe atirar e dar ordens. Parece uma combinação funcional. É só isso.
Olívia olhou de um para o outro, sentindo a tensão cortante entre eles. Mas a lógica de Carla era irrefutável, e ela não tinha energia para discutir.
— Certo — ela assentiu, esfregando a têmpora. —Vão. Mas, Matheus, antes de você ir, preciso de mais uma coisa. Envie para mim, o mais rápido possível, uma lista. Os nomes dos sócios majoritários das Indústrias Moretti que ainda estão ao lado de Ian. Não os que fugiram depois do escândalo. Os que ficaram.
Matheus entendeu imediatamente. Era hora de separar os aliados verdadeiros dos abutres. Ele assentiu.
— Em uma hora você tem a lista.
***
A viagem até o escritório do advogado foi feita em um silêncio tão espesso que parecia sufocante dentro da viatura não identificada. Carla mantinha os olhos fixos na paisagem urbana que passava, seus dedos tamborilando nervosamente na bolsa. Matheus, ao volante, parecia esculpido em granito. O ar estava carregado do não dito, da humilhação dela, da culpa dele.
No escritório, a tensão não diminuiu. O advogado, um homem idoso e assustado, entregou o que foi pedido com mãos trêmulas: um envelope lacrado com as chaves físicas do cofre e um pequeno caderno de capa de couro gasto – o diário de Helena. Carla o pegou, folheando as páginas com uma eficiência clínica, enquanto Matheus conferia as chaves.
O próximo passo era um voo relâmpago para o interior. A logística foi um pesadelo de última hora, mas o dinheiro e os contatos de Matheus (e a urgência do caso) abriram portas. No avião particular, o silêncio continuou. Carla trabalhava, traduzindo anotações cifradas do diário, recusando-se até mesmo a aceitar um copo d’água das mãos dele.
Só quando chegaram ao local, dentro do frio e impessoal cofre privativo do banco, o peso do que estavam recolhendo quebrou um pouco a barreira profissional. Abrir a caixa de metal foi como abrir a sepultura dos segredos dos Moretti. Pilhas de documentos, pen drives, cartões de memória, até antigas fitas cassete. Havia nomes, datas, valores que faziam os olhos de Carla arregalarem.
— Meu Deus — ela sussurrou, segurando uma lista de pagamentos a políticos. — Isso aqui não destrói uma família. Destrói um país.
Ele finalmente ergueu os olhos. De perto, ela podia ver a exaustão, a culpa, os mesmos fantasmas que ele carregava.
— Eu não podia ir — ele disse, a voz um rugido baixo. — Naquele dia. Precisei fazer algo para. Eu… priorizei o trabalho. E aquele trabalho específico era pessoal para mim. Eu fui covarde para te dizer a verdade.
— Você sempre prioriza! — ela explodiu em um sussurro furioso. — Você é uma máquina, Matheus! Carne e osso e protocolo! Eu estava… eu estava começando a… — Ela não terminou. O risco era grande demais.
O que aconteceu a seguir não foi gentil, nem romântico. Foi um rompante. A confissão dele, a vulnerabilidade nua por um instante, combinada com a dor, a adrenalina e anos de uma tensão nunca resolvida, criou um vácuo. Matheus moveu-se. Ou foi Carla quem puxou seu colarinho. Ninguém saberia dizer.
O beijo foi uma colisão. Intenso, cru, cheio de dentes, raiva e um desejo reprimido por tanto tempo que tinha gosto de ódio. Não havia ternura. Era posse, era acusação, era uma tentativa desesperada de encontrar um terreno comum na única linguagem que pareciam compartilhar naquele momento – a física, a brutal.
As mãos dele, grandes e ásperas, agarravam seu rosto, depois desceram em um gesto decidido e pouco delicado pela sua coluna, puxando-a contra ele com uma força que a deixou sem ar. Uma de suas mãos encontrou a curva de seu quadril, apertando com firmeza quase obscena através do tecido do jeans, puxando-a para sentir a evidência dura de sua excitação contra sua coxa. Carla respondeu na mesma moeda, seus dedos enterrando-se nos cabelos curtos dele, puxando, suas unhas arranhando seu couro cabeludo, sua boca abrindo-se sob a dele num convite agressivo e úmido. Era um conflito, uma luta corporal onde cada toque era um ponto marcado, cada gemido abafado uma rendição temporária.
Foi só quando a mão dele subiu por baixo de sua blusa, a palma quente e calejada fechando-se sem cerimônia sobre o tecido fino de seu sutiã, que um clarão de realidade cortou a névoa vermelha de Carla.
Ela viu-se ali. No chão frio de um cofre, com o tornozelo torcido, se debatando com o homem que a humilhou, rodeada pelos segredos podres que destruíram a vida de sua melhor amiga. A imagem foi um balde de água gelada.
Com uma força que surpreendeu a ambos, ela empurrou seu peito, quebrando o beijo. Antes que ele pudesse processar, antes que o olhar atordoado e ainda carregado de desejo dele pudesse se tornar outra coisa, sua mão livre voou.
O tapa foi seco, alto, e ecoou no espaço metálico e apertado. A marca vermelha de seus dedos surgiu instantaneamente na bochecha de Matheus.
O silêncio que se seguiu foi mais estrondoso que o beijo. Carla estava tremendo, os lábios inchados e dormentes, o sabor dele ainda em sua boca, misturado ao gosto de sangue – dela ou dele, não sabia dizer. O olhar que ela lhe dirigiu era de horror – horror com ele, horror consigo mesma.
— Isso… isso nunca aconteceu — ela sussurrou, a voz quebrada. — E nunca vai acontecer de novo.
Empurrando-o para o lado, ela se apoiou na parede e se levantou, mancando, ignorando a dor lancinante no tornozelo. Pegou o malote mais próximo, seu rosto uma máscara de pedra.
— Pegue o resto. Temos uma herança para entregar.
Matheus ficou de joelhos no chão frio, a bochecha ardendo, o corpo ainda em estado de choque e excitação não resolvida, observando-a se afastar. O gosto dela ainda estava em seus lábios. O preço do seu erro, afinal, era mais alto e mais complexo do que ele jamais imaginara.

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