Mesmo com o ar-condicionado ligado, as costas de Vitória Lacerda ficaram encharcadas de suor frio.
Uma rajada imaginária de ar gélido arrepiou todos os pelos do seu corpo.
— Quem poderia ser...? — murmurou ela, a voz carregada de um tremor sutil.
Quem a estava espionando nas sombras, com tamanha audácia de usar um entregador para jogar isso na sua cara?
— Não vai ser difícil descobrir.
— Mas mesmo rastreando, vai ser complicado cravar a identidade.
Fernando Pereira mantinha a frieza típica da sua profissão.
— O criminoso pediu por um aplicativo de comida, não usou um motoboy particular, o que muda a dinâmica de logística.
— Um serviço particular iria retirar um pacote e trazer direto. Já um entregador de restaurante precisa esperar o pedido ficar pronto para despachá-lo.
— O restaurante não embalou as fotos. Isso significa que a pessoa plantou o envelope dentro da sacola entre o momento que o pedido ficou pronto e o momento em que o entregador a pegou.
— Temos câmeras de vigilância espalhadas por toda a rota. Puxar as imagens de quem adulterou o pacote será moleza.
Embora a voz dele fosse puramente técnica e sem qualquer tom de conforto, Vitória Lacerda acalmou-se como num passe de mágica.
Ela ergueu o rosto para observar o homem diante de si.
Os traços dele eram marcantes, os ombros largos e a postura imponente, transmitindo uma segurança inabalável.
Seus olhos brilhavam como estrelas firmes no céu, como se nenhuma tragédia fosse capaz de ofuscar a sua luz.
Vitória Lacerda puxou o ar com força.
— Eu vou ligar para a delegacia e abrir um boletim de ocorrência primeiro.
Mesmo tendo o capitão dos detetives bem ali e podendo investigar sozinha, os procedimentos oficiais tinham que ser seguidos à risca.
Fernando Pereira não tentou impedi-la. Enquanto ela falava ao telefone, ele voltou a inspecionar os potes de comida.
Foi assim que, boiando sobre as cebolinhas da sopa dos bolinhos recheados, ele encontrou um leve rastro de um pó branco.
Quando Vitória Lacerda retornou, viu-o raspando cautelosamente aquele pó para dentro de um saquinho e franziu a testa.
— É algum sedativo? Boa-noite-cinderela?
— Difícil dizer.
Fernando Pereira soltou uma piada sem graça com a expressão mais séria do mundo:

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