— Eu aceitei.
— Eu trabalhava sem parar, mesmo que isso acabasse com o meu tempo de estudo. Só pensava que, se tivesse um teto e pudesse continuar estudando, já estava bom.
Caio Mendes encarava um ponto vazio no ar, com a voz carregada de exaustão e ressentimento.
— Mas eles passaram dos limites!
Ele bateu na mesa com ódio e repetiu:
— Passaram dos limites!
— Não importava o quanto eu ajudasse em casa, eles me odiavam.
— Mesmo que eu comesse quase nada, passando fome em todas as refeições na casa da família Mendes, a mãe do Cláudio Mendes ainda me xingava.
A mãe de Cláudio não perdoava nem os vizinhos, então é claro que não deixaria em paz um coitado como Caio Mendes, que vivia de favor e era um alvo fácil.
Por isso, Caio Mendes era bombardeado todos os dias por ela com palavras como:
— Encosto! Tira nota alta, mas é um inútil que não sabe nem passar um pano no chão! Parasita!
Ela também vivia repetindo o mesmo discurso:
— Não tem nem onde cair morto e fica pensando em estudar para quê? O certo é ir logo trabalhar para ajudar nas despesas de casa! Os jovens de hoje são muito egoístas, só pensam neles mesmos e não estão nem aí para os outros.
No começo, Caio Mendes ainda tentava retrucar.
Dizia que só conseguindo se formar e ter uma carreira é que poderia ganhar dinheiro e dar uma vida boa para a família.
Nessa hora, a mãe do Cláudio ria.
Uma risada estridente, horrível, parecendo um pato engasgado.
— Nossa, que grande futuro você tem. Ainda pensa em dar uma vida boa para a família? Que tal começar pagando o aluguel do quarto onde você dorme na nossa casa? Um marmanjo do seu tamanho não come, não dorme, não gasta água nem luz, por acaso?
— Falar bonito todo mundo fala, mas e daí? Para que serve?

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