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No Limite do Desejo romance Capítulo 2

Heloísa Navarro

Eu desço do carro sentindo o ar de Búzios me invadir os pulmões como se fosse uma memória líquida. Sal. Sol. Vento quente. E um passado que nunca me largou, só aprendeu a esperar. O calor cola o vestido ao meu corpo, desenhando as curvas que o Rio de Janeiro moldou com o tempo e a maturidade. Por um segundo, eu fecho os olhos. Respiro fundo. Não para acalmar. Para ancorar. Eu voltei porque quis. Porque escolhi. Porque agora sou capaz de sustentar o peso da minha própria existência.

A casa de praia da minha família continua exatamente como sempre esteve. Branca, ampla, elegante sem esforço. Janelas enormes abertas para o mar, como se nada ali precisasse se esconder. Luxo sem ostentação. Conforto sem culpa. Meu pai sempre fez questão de que esse lugar fosse um refúgio, não uma vitrine. Mesmo assim, cada centímetro carrega história demais. Minha infância espalhada pelos corredores. Minhas férias intermináveis. Os pés descalços correndo pela varanda. As risadas altas. Os sonhos ingênuos.

E o primeiro homem que eu amei — em silêncio.

Puxo a mala pela varanda, sentindo a madeira quente sob a sola do pé. O som do mar b**e num ritmo constante, quase hipnótico. Poderia ser só isso. Uma volta para casa depois de anos fora. Um recomeço profissional. Um retorno planejado, racional. Mas nunca foi só isso.

Porque ele está aqui.

— Heloísa?

A voz chega antes da imagem. Grave. Masculina. Um pouco rouca. Como sempre foi, mas agora com uma ressonância que parece vibrar diretamente no meu baixo ventre. Meu corpo reage antes de mim. Ombros tensionam. O estômago contrai. O coração acelera como se tivesse sido chamado pelo nome também. Eu me viro devagar, recompondo a máscara de indiferença que levei sete anos para esculpir.

Heitor Valente está encostado no b**ente da porta, braços cruzados, camisa de linho azul-claro aberta no peito, revelando o bronzeado que Búzios nunca deixou desbotar. O sol b**e nele de um jeito quase injusto, destacando o que eu não esperava: os cabelos castanhos agora estão salpicados de fios prateados. O grisalho nas têmporas o deixou absurdamente mais bonito, conferindo-lhe uma aura de autoridade e perigo que eu não estava preparada para enfrentar. A linha firme do maxilar, a barba por fazer agora também mesclada de cinza... ele não é apenas presença. Ele é um impacto sísmico.

— Cresci por dentro — respondo, a voz mais cortante do que eu planejei. — Porque, da última vez que nos vimos, eu já tinha vinte anos. E, pelo que me lembro, o tamanho é o mesmo.

O canto da boca dele se contrai. Não chega a ser um sorriso. É surpresa. Ajuste. Incômodo. Ele percebe que o beijo na testa não teve o efeito de "acalmar a criança" que ele esperava.

— Faz tempo — ele diz, como se isso explicasse o abismo que se abriu entre nós.

— Faz — concordo. — Tempo suficiente para algumas coisas mudarem. Inclusive o meu gosto por certas demonstrações de afeto.

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