Um irmão — e, mais do que isso, um consolo para a alma dela.
O rosto de Santiago não mostrava muito, mas os olhos dele transbordavam sentimento, sem mais repressão.
— E você? Você sente… nem que seja um pouco, o mesmo por mim?
A voz de Santiago veio macia, leve como uma pena caindo no chão, cuidadosa, como se temesse ferir Lúcia.
Os lábios de Lúcia se abriram, mas não saiu nada.
Ela não sabia o que sentia por Santiago. Sempre pensara que era só carinho de irmã. Mas, quando precisava encará-lo e dizer algo, o que vinha era uma tristeza difícil de suportar.
Era dor.
Olhando para ele, ela sentia uma dor miúda e insistente no peito.
Era uma sensação que nunca tivera. Ela não entendia.
Ainda assim, depois de lutar por alguns instantes, a razão venceu:
— Desculpa.
— É mesmo? — Santiago sorriu, como se já esperasse. — Eu achei que… você ter vindo me procurar… eu entendi errado.
Ele entendera errado.
Verônica também o procurara. Lúcia sempre acreditara nele; a forma como ela o defendia sempre lhe dava esperança.
Mas, pensando bem, era natural. Ela sempre fora assim.
Lúcia não soube o que dizer. Santiago baixou a cabeça; havia um sorriso no rosto, mas a solidão era evidente. Ela não aguentou.
Virou-se e saiu.
Tudo se desarrumara.
Ela estava confusa demais.
Na cabeça de Lúcia, ela só viera falar com Santiago, esclarecer e voltar ao normal, como antes.
Ela o via como irmão e queria que ele ficasse bem por causa dela.
Mas, depois de vê-lo, nem ela sabia o que estava fazendo; era como se as emoções tivessem escapado do controle.
Esse estado se arrastou até a noite.
Lúcia passou o tempo todo distraída. Na hora do jantar, se perdeu em pensamentos; só voltou a si quando Denise a chamou várias vezes.
Antônio percebeu que havia algo errado.
— Você não precisa ser tão solícito. Eu não tenho nada para conversar com você.
— Sempre a mesma frase. Mesmo que você não me veja como marido, como parceiro de trabalho você não deveria me tratar assim.
Antônio soltou uma risada curta, irritada.
— Esse jeito de ir me amolecendo aos poucos não funciona comigo. Sai. Hoje eu estou cansada e quero ficar sozinha.
Lúcia foi direta, sem poupar.
E ela não estava errada: Antônio queria, sim, ir amolecendo aos poucos.
Ele já tinha se resolvido: gostar de alguém era se entregar; errar era reparar.
E o tempo era o único remédio entre os dois.
Mesmo que não desse certo, ele queria tentar.
Quando Lúcia gostava dele, ela aceitara ficar ao lado dele o tempo todo. Por que ele não poderia fazer o mesmo agora?
Antônio viu que o rosto dela realmente estava ruim. Não insistiu. Assentiu.
— Descansa. Você comeu muito pouco. Daqui a pouco eu peço para a Dona Sandra trazer alguma coisa mais nutritiva.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: No Dia do Luto — Traição
Sim acabou a história???...