Mas, no fim, Denise tinha apenas cinco anos.
E, diferente dela, Denise podia ter qualquer sonho — sem pedir licença a ninguém.
— Porque a mamãe desenha muito bonito. Eu quero desenhar com a mamãe.
O carinho na voz da filha fez Lúcia sentir o coração se dobrar por dentro. Ela afagou a cabeça de Denise e concordou:
— Está bem.
Duas horas se passaram até Antônio terminar o cardápio que Lúcia tinha “planejado” para ele.
Ele nunca tinha cozinhado, mas, seguindo tutoriais detalhados na internet, os pratos ficaram com boa aparência.
Antônio ficou um bom tempo com o garfo na mão, hesitando, até provar um pouco de cada.
Ele sempre fora confiante — confiante a ponto de desprezar os outros.
Mas, naquela única coisa... ele não tinha confiança nenhuma.
Um gosto pálido se espalhou na boca.
Quase tudo parecia ter o mesmo sabor. Não era ruim, mas também não era bom, faltava alguma coisa.
Antônio franziu o cenho por um tempo, sem achar solução. O único “socorro” possível foi acrescentar mais um pouco de sal.
Ele olhou o relógio, tirou o avental.
A camisa nas costas já estava encharcada.
— Está pronto. Denise, Lúcia, venham pôr a mesa.
A voz de Antônio ecoou enquanto ele levava os pratos para a mesa.
Depois de tanto tempo cozinhando, os dois — a pequena e a grande — deviam estar famintos.
Ao pensar nisso, ele sentiu uma inquietação.
Não imaginara que cozinhar fosse tão trabalhoso, só lavar e preparar os ingredientes tinha tomado mais de uma hora.
No meio do caminho, Antônio chegou a pensar em pedir a Orlando que trouxesse Dona Sandra, mas ele já tinha aceitado diante de Lúcia, então, seguiu até o fim.
Só que ninguém respondeu.
Mesmo depois de colocar todos os pratos na mesa, nenhuma das duas apareceu na sala de jantar.
Nesse instante, Denise percebeu Antônio atrás das duas.
O chamado dela assustou Lúcia, com um estalo, a ponta do lápis quebrou.
No queixo de Antônio, ficou uma linha preta, feia, marcada.
Lúcia largou o cavalete depressa.
— Antônio.
O coração dela falhou uma batida. Ao perceber que ele tinha visto o retrato, ela se apressou em acrescentar:
— Não fui eu que quis desenhar você. A Denise estava aprendendo retrato, insistiu em fazer você, mas o contorno ficou muito diferente... eu só estava ajudando a ajustar...
— Hum. — Antônio respondeu baixo, interrompendo a explicação. — A comida está pronta. Venham comer.
E, sem olhar mais para Lúcia, ele segurou Denise pela mão e saiu primeiro.
Lúcia ficou onde estava, com o peito pesado, sufocante.
Ela tinha se explicado de um jeito apressado — como se estivesse se defendendo de uma culpa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: No Dia do Luto — Traição
Sim acabou a história???...