*
— Santiago… é você?
No escuro, Verônica ouviu passos se aproximando e se debateu como pôde.
Mas seus braços e pernas estavam amarrados com firmeza; até mexer um pouco exigia esforço.
Uma hora antes, Verônica recebera uma ligação: alguém tinha deixado um arranjo de flores e um envelope, e ela precisava ir buscar pessoalmente.
O remetente assinara com o sobrenome Xie.
Verônica perguntara pela altura e aparência do homem e, de imediato, pensara em Santiago.
Santiago aparecer ali não a surpreendia.
Afinal, a pessoa de quem ele mais se importava agora era Lúcia; num momento tão importante, ele certamente queria marcar presença.
Verônica já tinha sondado Lúcia: Lúcia realmente decidira não voltar a ter contato com Santiago. Para aquele desfile, em teoria, também deveriam ter convidado Lorenzo e os outros…
Quase sem hesitar, Verônica desceu para buscar o que haviam deixado.
Se conseguisse ver Santiago, ela queria perguntar por que ele contara a Lúcia sobre eles.
Talvez as pessoas fossem assim: criaturas que insistiam em se ferir.
Mesmo sabendo que era um abismo, ainda queriam dar um passo, provar o gosto de se despedaçar.
Assim que Verônica entrou num beco estreito, alguém tampou sua boca por trás e colocou um capuz em sua cabeça.
O carro rodou por mais de dez minutos. Levaram-na para um lugar desconhecido, amarraram suas mãos e pés e a prenderam numa cadeira.
O som de sapatos sociais se aproximou cada vez mais.
Mas o ritmo daqueles passos não parecia o de Santiago.
Santiago andava rápido; nunca arrastava assim.
— Q-quem é você?
Verônica entendeu então: se fosse Santiago, mesmo que quisesse se vingar, não escolheria aquele momento para agir.
O desfile daquela noite era importante, tanto para Lúcia quanto para Lorenzo.
— Quem é você…?
O outro não respondeu.
Apenas continuou andando, dando voltas ao redor dela, indo e vindo, como se a cercasse.
— Droga!
A voz atravessou os ouvidos dela — familiar.
Verônica estremeceu. — Leonardo?
Ela conhecia aquela voz melhor do que qualquer outra.
— …
Como Verônica o reconhecera, Leonardo não se escondeu mais.
Com um gesto brusco, ele arrancou o capuz dela. Os olhos de Verônica estavam vermelhos; ela o encarou com ódio.
Leonardo vestia uma camisa rosa-clara, impecável, sem um grão de poeira, com uma elegância contida.
Já Verônica estava desgrenhada, suja, humilhada.
Ela tinha acertado: ali era apenas um quarto pequeno num prédio residencial comum.
Devia ser um edifício antigo; os móveis de madeira eram velhos, e havia um leve cheiro úmido de mofo.
Verônica estava amarrada numa poltrona de couro ao lado da varanda; ao menos o lugar era arejado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: No Dia do Luto — Traição
Sim acabou a história???...