De repente, ela se lembrou daquele carro com faróis piscantes que, em várias noites, a tinha tirado do seu estado de esgotamento emocional.
Naquele momento, a imagem do carro de Sebastião se misturou com a do veículo que ela costumava ver da janela do escritório do segundo andar.
Dentro do carro, Sebastião segurava o estômago, com as sobrancelhas levemente franzidas.
Daniel, pelo espelho retrovisor, notou imediatamente a anomalia do chefe.
— Chefe, o seu estômago não está bem?
Que estranho!
Seu chefe tinha uma saúde de ferro, nunca sofria daquelas moléstias de gente rica cheias de frescuras. Quanto a dor de estômago, isso simplesmente não existia para ele.
Sebastião respirou fundo.
— Pare um pouco, vá comprar um remédio para digestão para mim.
Os olhos de Daniel se arregalaram.
— Chefe! A comida daquele restaurante era tão boa assim? Você comeu até ficar mal do estômago!
E passou mal a ponto de precisar de remédio!
Se era tão bom assim, ele também iria experimentar quando tivesse a chance!
— Cale a boca e dirija. — Sebastião disse entredentes; seu estômago estava doendo muito e ele não queria dizer mais nenhuma palavra.
Pelo retrovisor, Daniel viu o olhar sombrio de seu chefe, parecendo que, se dissesse mais uma palavra, perderia a vida na mesma hora.
Assustado, ele fechou a boca com força, transformando os lábios numa linha fina, e pisou mais fundo no acelerador.
Mas, no fundo, ele continuava muito curioso para saber o quão deliciosa era a comida daquele restaurante, a ponto de fazer seu chefe, que nunca ligou muito para os prazeres da gula, comer até passar mal!
...
Já era depois da meianoite quando Jorge finalmente voltou para o lugar que ele ainda chamava de casa.
Naquela hora, tanto o interior da casa quanto o jardim já tinham voltado ao normal. Não restava nenhum rastro da cena feia e escandalosa que tinha acontecido ali pouco tempo antes.
Henrique Cavalcanti havia retornado para a velha mansão; ele não queria ficar ali nem por mais um minuto.

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