Ele pegou aleatoriamente um dos livros da estante, e depois de o abrir, percebeu que era um livro original em francês.
Ele não era um especialista em francês, mas conseguia entender um pouco. Ele o folheou por alto.
Lembrou-se que uma vez Alice recebera um pacote bem grande.
Na época, Alice ainda estava aprendendo a cozinhar com Dona Ester, e ele achou que ela estava gastando dinheiro à toa, comprando mais um monte de utensílios inúteis para a cozinha.
Mas ao abri-lo, ele descobriu que dentro havia caixas e caixas de livros, e que metade deles eram originais de vários países.
O que foi mesmo que ele disse para ela naquela vez?
Ah, "cultivando interesses refinados para parecer sofisticada"...
Nesse instante, Jorge já havia passado os olhos de maneira grosseira por todo o livro. Justo quando se preparava para fechar o livro, ele viu de repente, na última página, uma resenha escrita em francês.
Letra por letra, linha por linha. Uma página inteira escrita em francês, com uma caligrafia arrumada e fluida.
Ele reconheceu quase que de relance que aquela era a caligrafia de Alice.
Jorge fixou os olhos naquela página de resenha, que até para ele mesmo era um pouco difícil de ler, e o seu coração sofreu um grande abalo.
Em seguida, ele pegou outro livro na estante, desta vez em alemão.
Depois de o abrir, diferentemente do livro anterior em francês, neste livro em alemão quase todas as páginas continham anotações de Alice em alemão.
Jorge não entendia absolutamente nada de alemão. Usando o celular para escanear e traduzir uma página, ele descobriu que se tratava de um livro extremamente respeitado sobre mecânica quântica.
Jorge foi folheando página por página, observando as anotações densas que Alice fizera por cima, e as suas batidas cardíacas aceleraram gradualmente.
Na sua cabeça, lembrou-se claramente da expressão de empolgação no rosto de Alice ao receber aqueles livros.
E de como ela reagiu ao ouvi-lo soltar a frase "fingindo sofisticação".
Ela ficara visivelmente surpresa por um momento e, depois, respondera convictamente: "Vou ler todos eles."
Jorge viu o nome do doce; era exatamente aquele que Alice sempre lhe levava à noite no escritório.
Não era de admirar que, na última vez que Sabrina o havia preparado, ele só tivesse conseguido dar uma mordida. Descobria-se agora que a quantidade de açúcar estava errada.
Este caderno de receitas, que no início só continha observações sobre os gostos de Jorge, aos poucos começou a incluir as preferências de Júlio e, mais adiante, detalhava quase que as preferências culinárias de toda a família Cavalcanti.
Jorge fechou o grosso caderno e soltou um longo suspiro.
Ele precisava admitir que a atitude que Alice tivera com ele na conferência hoje, bem como o surgimento de Sebastião, de fato lhe causaram a sensação de perder o controle.
Mas agora, após ler aquele diário de receitas, aquela sensação de descontrole desapareceu completamente.
Alice o amava tanto; para se casar com ele, ela não hesitara em recorrer a meios baixos. Após o casamento, ela passou a vê-lo como a pessoa mais importante, e por ele não hesitou em adular toda a família Cavalcanti. Por causa disso, até abandonou a própria carreira na pesquisa científica.
Uma Alice assim nunca teria coragem de o deixar e de abandonar esta casa.

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