Cecília Tavares não sabia como tinha conseguido voltar para casa com a criança no colo.
Ela sentia até que estava sonhando.
A sensação de realidade era vaga; ela caminhava leve, como se pisasse em nuvens.
Cecília tinha uma ilusão constante.
Parecia que acordaria desse sonho a qualquer segundo e veria novamente aquele rosto detestável de Gustavo Serra.
Cecília estava meio deitada sobre um enorme urso de pelúcia de dois metros na cama, com o olhar vazio, perdida em pensamentos.
Candy Tavares havia chorado até a exaustão no funeral e agora dormia quietamente em seus braços, com o rostinho terno franzido e os dedinhos apertados, num sono inquieto.
Cecília passou três dias num estado de semi-consciência.
Ela não tinha memória desses três dias, sentindo apenas que vivia por instinto: comer, dormir...
Até mesmo os cuidados com a bebê eram feitos por memória muscular; sua mente estava em branco, incapaz de raciocinar.
Aurora Rocha observava tudo com os olhos vermelhos e o coração apertado.
Ela conversou com João Serra:
— Que tal procurarmos um psicólogo para a Cecília?
— Ela já teve depressão antes. Tenho muito medo de que a notícia da morte do Gustavo tenha sido um golpe forte demais e ela não aguente.
Aurora não conseguiu se conter ao terminar a frase, engasgando num soluço e limpando as lágrimas furtivamente com as costas da mão.
João, agora extremamente envelhecido e frágil, com o rosto enrugado e doente, falou com voz fraca, tentando animá-la:
— Vamos esperar um pouco mais, deixe a Cecília se acalmar por um tempo.
— Se arranjarmos um psicólogo agora, ela pode não gostar. Tenho receio de que o estresse cause uma somatização e piore tudo.
Aurora ouviu, com o coração ainda doendo, e apenas assentiu, suspirando pesadamente e dizendo com a voz embargada:
— Ah, eu só espero que a Cecília consiga superar essa fase logo. A vida ainda é longa.
— Sem o Gustavo ao lado dela daqui para frente, eu realmente não sei...
Aurora parou na metade da frase, sentindo-se tão mal que não conseguiu continuar, limpando as lágrimas com os olhos vermelhos.
Cristiano franziu a testa com força, olhando para ela com dor no coração, sem saber como confortá-la.
Por fim, ele apertou os lábios e disse apenas:
— Irmãzinha tola, como você estaria sozinha?
— Você tem a mim, aos pais, ao João Serra... Todos estão ao seu lado. Você nunca estará sozinha.
Ao ouvir isso, os lábios de Cecília se curvaram lentamente num arco indecifrável. Seus olhos olhavam para frente, sem foco, e ela murmurou baixinho:
— É verdade. Desde pequena, eu nunca estive sozinha.
— Mas ele era diferente. Além de mim, ele não tinha ninguém ao seu lado.
Mas, no final, ela também o afastou.
Cecília baixou os cílios, com a voz um pouco tensa:
— Irmão, você já ouviu uma frase?
— Algumas pessoas, na infância, nunca experimentaram a sensação de segurar a mão da mãe com a esquerda e a do pai com a direita. Depois de crescerem, passam a vida inteira buscando alguém que segure suas mãos com firmeza e inabalável determinação.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Na Noite da Tempestade, Eu Escolhi Partir
Pessoal aqui da plataforma,agora que os capítulos são pagos eles tem que pelo estarem completo tem capítulos aqui que estão incompleto dificultando o entendimento da história por favor revisem para nós leitores não ficarmos sem a história completa 😕...