Cap. 2
A frase continuou a ecoar na minha mente, cada palavra uma faca girando em câmera lenta. Minha futura Luna, Jady. Por quê? Como? O homem que eu amava estava com os braços envoltos em outra mulher, apresentando-a ao mundo como se nosso ano secreto nunca tivesse existido.
— Quando? — meu pensamento gritou, caótico e ensurdecedor. Jady nem sequer gostava de Fael! Ela sempre o chamara de "playboy mimado" nas nossas conversas à noite. Tudo aquilo foi uma mentira? Nossa amizade foi uma farsa?
Meu coração não gritou. Ele simplesmente parou. Por um segundo infinito, fiquei vazia, um casulo de carne e osso onde antes havia vida.
Então, a dor chegou. como uma implosão silenciosa que sugou todo o ar do salão e deixou apenas o vácuo gelado da traição.
Foi Jady quem ele puxou para o centro das atenções. Foi nela que a matilha concentrou seu olhar respeitoso. Foi ela a escolhida.
No dia em que eu completava dezoito anos.
Na manhã em que seu último sussurro, pela ligação mental, havia sido: “Confia em mim. Hoje será nosso dia.”
— Fael… — meu sopro de voz foi engolido pelo burburinho crescente.
Os convidados cochichavam, olhos saltando entre eu, paralisada no chão do salão, e o trio no topo da escadaria.
O Alfa, imóvel em seu trono de ébano, observava com a atenção precisa de um falcão.
Seu olhar não era de surpresa, mas de avaliação. Meu pai, ao seu lado, estava tenso como uma corda de arco.
“Quem é aquela garota?” os sussurros vinham em ondas. “Por que o herdeiro parece ter visto um fantasma?”
E então, Jady sorriu. Não para a multidão, mas para mim. Um sorriso que transformou seus traços doces em algo afiado e venenoso. Um sorriso que dizia: ‘Eu ganhei.’
Algo dentro de mim, algo mais profundo que a razão, mais antigo que a dor, se moveu.
Meus pés começaram a andar antes que eu ordenasse. Subi os degraus, cada passo ecoando no silêncio repentino que se abateu sobre o salão.
O vestido azul, outrora um símbolo de esperança, arrastava-se como um sudário.
Parei diante deles. O cheiro de Fael, pinho e céu noturno, misturava-se ao perfume enjoativo de Jady. Meu peito ardia, mas minha voz saiu estranhamente clara no vácuo silencioso.
— Como?
Fael recuou um centímetro, quase imperceptível. Seus olhos, aqueles olhos âmbar que juraram eternidade, evitavam os meus. Ele parecia… envergonhado? Irritado?
— Lirah, o que você está fazendo? — sua voz era baixa, um aviso, mas para os outros soou como a pergunta confusa de um príncipe diante de uma estranha invasora.
A cortesia quebrou.
— TRAIDOR! — O grito rasgou minha garganta e ecoou nas altas paredes de mármore. Minha mão moveu-se por vontade própria. O estalo do meu tapa contra seu rosto foi seco, agudo, uma detonação no silêncio absoluto.
O impacto reverberou pelo meu braço. O choque coletivo foi palpável, um suspiro gelado que varreu a sala.
— LIRAH! — A voz do meu pai, carregada de horror e autoridade, cortou o ar.
Fael levou a mão ao rosto, mais estupefato do que ferido. Seus olhos finalmente encontraram os meus, e neles só vi fúria. Fúria por eu tê-lo exposto.
— Como você ousa? — gritei, as lágrimas agora fluindo livremente, misturando raiva e agonia. — E todas as suas promessas? Seus juramentos?
Ele piscou, e por uma fração de segundo, vi o pânico. Depois, sua expressão endureceu, lavada por um desdém calculado.
— O quê? — ele riu, um som curto e falso. — Do que você está falando? Mal te conheço.
As palavras foram tão geladas que pareceram congelar o ar ao meu redor. Mal te conheço. Um ano. Segredos. Toques. Planos. Reduzidos a isso.
— Por quê? — balbuciei, recuando, o mundo desfocando.
— Nossa, que dramática! — a voz melosa de Jady cortou como um vidro. — Parece que temos uma ômega emocionada que confundiu gentileza com proposta de mate. Coitada. Deve acontecer bastante.
A chama da raiva, mais quente que a vergonha, explodiu.
— CALA A BOCA! — gritei, virando-me para ela. A traição dele era um monstro. A dela, uma facada nas costas. Empurrei seus ombros com força, sem pensar. — Sua falsa! Minha melhor amiga!
Fael reagiu como um raio. Sua mão fechou-se como uma braçadeira de aço em torno do meu pulso, dolorosa.
— Ei! Você perdeu mesmo a noção dos modos? — rosnou, sua máscara de príncipe perfeito rachando para mostrar o lobo agressivo por baixo.
A dor no pulso, a humilhação, a traição dupla… foi demais. O instinto tomou conta.
— Vá para o inferno! — Gritei, puxando meu braço com toda a força. — Não merece ser Alfa!
Meu movimento brusco, combinado com sua súbita soltura, me fez perder o equilíbrio. Os saltos altos traíram-me. Tropecei no degrau e senti o vazio se abrir atrás de mim.
Um rugido ensurdecedor, puro, explodiu no salão. Não foi de Fael ao me ver prestes a ter um fim. Foi do meu pai, seu olhar de pânico e sua posição de transformação...
Uma massa de pelo prateado e músculos passou como um furacão por mim. Em vez de cair no mármore duro, caí sobre um flanco macio e quente, coberto por uma pelagem espessa e familiar.
O grande lobo prateado de meu pai, sua forma Beta em sua glória total, absorveu meu impacto, envolvendo-me com seu corpo.
Enterrei o rosto em seu pelo, os soluços abalando-me, incontroláveis. O cheiro dele, de segurança e família, era um contraste agonizante com a traição pública.
— Quem está aí? — A voz não era alta. Era profunda, grave, e carregava um peso de autoridade que fez o ar parar.
Meu sangue virou gelo.
— Apareça. Agora. — A ordem não deixava espaço para desobediência. Ouvi o tinir de armas sendo desembainhadas, o bufado nervoso dos cavalos.
Eles sabiam.
Minhas pernas tremiam tanto que mal me sustentavam.
Era ele. O Alfa Kaelon. O próprio lobo que governava nosso mundo.
Eu nunca estivera frente a frente com ele, mas seu poder era uma presença constante, um rumor de força implacável e conquista quando mais perto se estar, mais massacrante é.
Respirei fundo, o sabor do medo, amargo e metálico, enchendo minha boca. Saí de trás da árvore.
Meus olhos baixos viram apenas botas de montaria enlameadas e as patas inquietas dos cavalos. Despi-me de qualquer resto de orgulho. Ajoelhei-me na terra úmida, curvando-me em submissão total, as mãos na frente no musgo frio.
— Perdão… — minha voz foi um farfalhar quebrado. — Eu… não sabia…
O silêncio foi absoluto. O peso do seu olhar sobre mim era esmagador.
Uma ômega, sozinha, na Floresta Real Reservada. A sentença por tal intrusão não precisava ser dita. Era conhecida por todos.
— A presença de ômegas não é permitida nestas florestas — a voz do Alfa desceu sobre mim. — Espero que esteja ciente de que sua vida chegou ao fim.
Ouvi o som distinto do arco sendo tensionado. Vários. Um coro mortal, eles com certeza não me reconheceram e isso poderia causar um erro fatal para a matilha e minha família.
Quando levantei os olhos, foi direto para ele. Montado em um enorme garanhão negro, Kaelon era como uma escultura de guerra viva.
Seu olhar, de um âmbar tão escuro que parecia preto, não estava em mim, mas em meu pai, que estava alguns cavalos atrás, seu rosto uma máscara pálida de horror quando finalmente me reconheceram.
Então, o olhar do Alfa voltou-se para mim. E foi quando aconteceu...
Uma faísca. Um choque súbito que nasceu no centro do meu peito e se espalhou num calor avassalador.
Não era medo. Era… reconhecimento. Um chamado primitivo, profundo, que meu corpo inteiro respondeu antes que minha mente pudesse entender. Meu lobo, sempre submisso, uivou para dentro, num misto de terror e anseio.
E no mesmo instante, os olhos do Alfa se arregalaram. Seu cavalo deu um passo atrás, nervoso. A flecha que ele apontara, num movimento quase imperceptível, desviou-se alguns graus.
O que estava acontecendo? O calor em meu peito queimava, intenso e estranho, pulsando em uníssono com um ritmo que parecia vir… dele.

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