Quando Ava abriu a porta da casa, a primeira coisa que sentiu foi o silêncio pesado que dominava o ambiente. Não era um silêncio tranquilo, mas denso, carregado, como se algo estivesse prestes a acontecer. Ela fechou a porta atrás de si com cuidado, mas o som pareceu ecoar mais do que deveria.
Adam estava sentado na sala.
A garrafa de whisky aberta sobre a mesa de centro, o copo pela metade na mão. A camisa ainda era a mesma do dia anterior, amassada, e o semblante deixava claro que ele não havia dormido. Os olhos estavam fixos nela desde o instante em que entrou, como se estivesse esperando exatamente por aquele momento.
— Onde você estava?
A voz saiu controlada, mas carregada de tensão.
Ava tirou o salto com calma, evitando encará-lo enquanto deixava os sapatos de lado.
— Não é da sua conta.
A resposta veio simples, direta, sem espaço para discussão.
Adam soltou um riso curto, desacreditado, levando o copo à boca.
— Claro que é da minha conta. Nós somos casados. Eu tenho um nome a zelar.
Ava levantou o olhar pela primeira vez desde que entrou.
— Não. Nós não somos mais casados — disse, firme. — Depois do que aconteceu ontem, você acabou com tudo.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas breve. Adam começou a rir, um riso baixo, carregado de ironia, como se aquilo tudo fosse absurdo demais para ser levado a sério.
— Você? Indo embora?
Ele balançou a cabeça, ainda rindo.
— Não me faça rir, Ava. Você sempre soube muito bem por que ficou. Você só está aqui por interesse. Pelo meu dinheiro. Você não vai a lugar nenhum.
Ela não respondeu.
Não havia mais o que discutir.
Virou as costas e seguiu em direção ao quarto. Cada passo parecia mais firme que o anterior, como se, pela primeira vez em anos, estivesse realmente decidida.
Ao entrar, olhou ao redor por um instante. Aquele espaço, que um dia tentou chamar de lar, agora parecia estranho. Frio. Impessoal. Como tudo o que existia entre eles.
Ava foi até o armário e começou a separar suas coisas. As mãos se moviam com rapidez, mas sem desespero. Havia decisão. Cada peça dobrada, cada objeto guardado, era um passo a mais para longe daquela vida.
A porta se abriu novamente.
Adam encostou no batente, observando-a em silêncio por alguns segundos, como se ainda esperasse que ela parasse.
— Você está mesmo fazendo isso? — perguntou, com desdém. — Acha que eu vou correr atrás de você?
Ele soltou um riso breve.
— Por favor, Ava… nós dois sabemos que você nunca teve coragem pra ir embora.


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