Caroline Hart
A batida da música ecoava baixinho pelo rádio velho da cozinha, e, pela primeira vez em dias, meu corpo se permitia relaxar após toda aquela loucura.
A colher de pau virou microfone. A frigideira, tambor improvisado. E eu, com a camiseta larga, meu avental e o cabelo preso de qualquer jeito, dançava entre a bancada e o fogão como se ninguém estivesse vendo.
Ou se importando.
Minha cantora favorita, Lana Del Rey, tocava no rádio.
Meus pés deslizavam pelo chão, os ovos quase queimando na frigideira, como se aquela cozinha fosse minha.
E eu nem ligava. O que importava era que, naquele instante, eu não era a mulher fugindo do passado. Nem a humana cercada de segredos sobrenaturais.
Eu era só Caroline. Livre por alguns minutos.
Até ouvir o pigarro.
"Bom dia…"ele pigarreou."
Virei devagar, o rosto pegando fogo antes mesmo de ver quem era.
Damon estava encostado no batente da porta.
Braços cruzados.
Sobrancelha erguida.
E um sorriso torto brincando no canto da boca.
"Eu… estava só testando a acústica da cozinha." larguei a colher imediatamente.
"Claro." Ele andou até a bancada, pegando uma fatia de torrada com total naturalidade. "E pelo visto, a acústica está ótima, Hart."
"Você podia ter avisado que estava aí."
"Perderia a apresentação."
Revirei os olhos, tentando não rir. Mas ele ainda estava lá. Observando. E havia algo no olhar dele… mais leve. Quase calmo.
Por um instante, o peso do mundo parecia ter dado trégua.
"Desculpa, eu sei que estou aqui a trabalho… eu só estava tentando me distrair."murmurei."
Ele me encarou de cima a baixo, reparando no coque bagunçado no topo do meu cabelo.
"Hart." ele se aproximou." Não peça desculpas, não temos tais formalidades quando você está nua na minha cama." sussurrou em meu ouvido."
Os pelos do meu corpo enrijeceram, e eu tentei fingir que sua provocação escondida não me atingiu.
"Está com fome?" perguntei, tentando fingir normalidade.
"Com muita." Ele pegou outra torrada. "E a performance foi um bônus."
"Não se acostume com isso."
"Já me acostumei, humana."
Me virei para o fogão, o rosto ainda queimando de vergonha. Damon sentou-se à mesa,seus olhos azuis me observando em silêncio enquanto ele mexia no computador.
"Você é realmente dono de toda aquela construtora?"perguntei."
"Sim." ele respondeu enquanto me encarou." Meu pai me deixou como herança a construtora, toda essa propriedade, e mais terrenos ao redor da floresta."
"Interessante." sussurrei." Um CEO que se transforma em lobo."
"Poucas pessoas sabem disso Hart."
"Daiana sabe?"
"Ela é uma de nós."
Meus olhos se arregalaram em surpresa, mas não tive tempo para reagir quando o celular vibrou no meu bolso, meu coração pulou. Eu sabia que ela era ocupada, e que só me ligava quando acontecia algo sério.
Magie.
Atendi.
"Você acha que consegue?"
"Eu não sou qualquer um, Caroline. Já destruí homens com mais poder do que ele. E estou disposto a fazer isso de novo."
"Ele vai tentar me punir só por dizer não. Só por ir embora."
"Enquanto eu estiver cuidando de você…" Damon se aproximou. Os olhos, escuros como a floresta lá fora. "…você não precisa ter medo de nada."
As palavras não foram um consolo.
Foram um aviso.
E eu sabia: Zion ainda estava por perto.
Mas agora… Damon também estava. E ele não deixaria nada passar.
Os olhos de Damon se estreitaram, mas ele não desviou o olhar.
Dessa vez, ele não se esquivou.
"Caroline…" a voz dele saiu firme, baixa. "Acho que está na hora de eu te mostrar tudo."
"Mostrar o quê?"
"O meu mundo. Quem eu sou de verdade."
Meu coração saltou no peito.
"Mas você já me mostrou o que é. Você é um—"
"Não é sobre o que eu sou." Ele se levantou. A presença dele preencheu a cozinha como uma sombra protetora. "É sobre o que você precisa saber. E a partir daqui… não tem volta."
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
Depois, assenti.
"Então me mostra, Damon. Eu não quero viver pela metade."

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