Artemísia
Eu a observava. Cada movimento seu despertava em mim uma sensação estranha e intensa.
Pelos começavam a surgir na flor de sua pele; Lucila ainda era muito jovem para iniciar a transformação. Mesmo que permanecesse firme, a experiência seria brutalmente dolorosa.
— Liliane, leve a Vanessa. — Minha cunhada humana já havia se assustado o suficiente.
Ouvi o suave bater da porta atrás de mim.
Eu ainda não era Luna dela; sua loba não me obedeceria. Então, usei o método antigo: baixei um pouco a gola de sua blusa, expus meus dentes de guerra e mordi, transferindo minha essência. Ela gritava, ainda em agonia.
Olhei em seus olhos, buscando a loba.
Encontrei o brilho escondido em seu olhar; eu a sentia tremendamente raivosa, querendo escapar.
— Loba, pare agora mesmo. — Implorei à deusa por efeito; nunca precisei exercer meu poder de dominação dessa forma antes.
Ela parou, olhando-me, seu corpo ficou imóvel.
— O que está fazendo? Sua humana é muito jovem.
Meu tom era baixo e duro.
— Meu companheiro esteve com outra. Sinto como se uma faca me queimasse por dentro.
Olhei para a loba, entendendo sua aflição.
— Você sentiu seu parceiro cedo demais. Sua humana não está pronta nem para se transformar, nem para o cio. O macho de quem você fala é antigo e experiente. Está errado.
— Mas ele sabe que é nosso. Deveria ter se guardado para nós. — A voz da loba saiu frustrada.
— Provavelmente ele terá outras fêmeas até que sua humana amadureça. — Falei a verdade, embora estivesse triste por ela.
— Você é minha Luna. Sua obrigação é me proteger, provar seu poder e desfazer o vínculo. — A loba exigiu. Senti como se um soco tivesse atingido meu estômago.
— Só farei isso quando você atingir a maioridade, se Lucila assim desejar. Mas posso mandá-la para longe, para que nunca sinta isso de novo até então. Depois ela volta, e decidiremos. — Eu já havia combinado de enviar Lucila para o Norte para estudar.
— Eu não quero. Ele saberá onde estou. Quero ir a um lugar onde não consiga me achar.— Pensei por um instante.—Quero que sofra como eu.
Ela estava ferida e determinada.
— Isso eu posso fazer, loba, mas cuide de permanecer no seu lugar até que sua humana amadureça.
Ela balançou a cabeça levemente.
— Sim, Luna.
A loba de Lucila se acalmou. Banhei Lucila e a deitei em minha cama.
— Eu viajarei com o Alfa Felipe após a cerimônia. — Felipe ascenderia a Alfa, não por nascimento, mas por nossa união. — Os novatos se reportarão diretamente ao Alfa Aquiles e a Gustavo caso algo aconteça na minha ausência. Tenho um pedido a fazer aos novatos… — Seus olhos se estreitaram com atenção; os lábios da maioria eram finos, pareciam esperar o pior.
— Quero que se coloquem no lugar de nossos machos por alguns dias. Na cabeça deles, perderam a única chance de ter a companheira de seus lobos sem enlouquecer. Já tenho minha cadeia cheia de lobos; e não de prisioneiros, mas de lobos querendo se jogar de abismos. Caso percebam algum assim, fiquem longe e chamem imediatamente um superior. Nossa ligação será feita na manhã da minha cerimônia. Alguma dúvida?
— Sim, Luna. Como um Beta montará uma Alfa na minha matilha? — Eles chamavam as pequenas alcateias de “matilha” pejorativamente, comparando-as a cachorros. Sempre tem um engraçadinho.
Todos sentiram o peso da minha dominância.
— Um Alfa menor não serve nem para lamber as botas do meu Beta. Ele é mais forte, mais treinado e infinitamente mais estratégico. Portanto, se pretende continuar respirando, sugiro que não cometa a estupidez de desafiá-lo.
Após todos saírem da sala, organizei os questionários sobre a mesa. Senti a energia do meu companheiro e um pequeno sorriso escapou dos meus lábios. Senti seu abraço por trás.
— Então me diga, companheira… você realmente acredita em tudo aquilo que falou sobre mim? Ou está apenas tentando esconder sua fraqueza dos outros?
Me virei para ver um sorriso frio surgir em seus lábios.
— Não… acho que seja uma fraqueza. Não costumo mentir, Beta.
Sua fisionomia se transformou em algo indescritível. Sua boca encontrou a minha com força, como se quisesse me devorar. Suas mãos apertaram minha cintura como garras; afastei-me por um instante.
— Felipe…
— Shhhh… já tranquei a porta. Não me negue seu corpo, por favor, carinho. Me deixe te tocar ou, juro pela deusa, enlouquecerei.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...